Estresse é a causa de cabelo branco precoce

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A relação entre estresse e cabelos brancos não ligados ao envelhecimento é algo comum, mas que ainda não tinha sido descrita pela ciência. Após testes com cobaias, um grupo de pesquisadores da Universidade de Harvard não só comprovou a ligação como desvendou o mecanismo que faz com que situações estressantes desencadeiem o aparecimento de fios grisalhos. De acordo com a pesquisa, que teve a participação de um pesquisador brasileiro, o estresse interfere no processo de produção das células responsáveis pela pigmentação dos cabelos. Sem elas, os novos fios nascem brancos. E o processo é irreversível. O achado foi publicado na quarta-feira, 22 de janeiro, na revista científica Nature. “Existe um mito popular de que o estresse causa cabelo branco, uma aceleração do branqueamento do cabelo. Há relatos na história de pessoas que sofreram um estresse muito grande e ficaram com cabelo branco, como Maria Antonieta, após ser capturada na Revolução Fran­cesa, mas não havia nenhuma evidência científica de que isso aconte­ce”, afirma Thiago Mattar Cunha, pesquisador do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (Crid) e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP). Em seus estudos no Brasil, Cunha, que estuda dor, já tinha notado, há cerca de dois anos, que as cobaias ficavam com a pelagem esbranqui­çada após eventos de estresse. Em Harvard, onde fez um sabático com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), comentou o seu achado com outros pesquisadores e foi convi­dado a participar do estudo. O pesquisador explica que, quando há uma situação de estresse, ocorre a ativação do sistema nervoso simpático, que é de luta e fuga. É ele que faz aumentar a frequência cardíaca e a irrigação dos músculos, mecanismos importantes caso uma pessoa precise lutar ou fugir em uma situação de risco. “O que a gente observou nesse caso é que o estresse leva a uma eleva­ção simpática (ativação do sistema nervoso simpático), e o folículo do pelo é irrigado por esse sistema. O folículo está cheio de células-tronco, que dão origem às celular que produzem o pigmento que dá coloração ao cabelo. A noradrenalina liberada (pelo estresse) diferencia as células­-tronco, e elas perdem a capacidade de produzir as células de pigmen­to”, explica o pesquisador. A partir desse processo, todos os novos fios que nasceram nas cobaias eram brancos. “A gente sacramentou que era realmente relacionado ao estresse. Todo o estudo foi feito com animais, mas é bem provável que esse mecanis­mo também ocorra em seres humanos. A gente acredita que é um me­canismo compartilhado com outras espécies”. Nos animais, o processo ocorreu em quatro semanas. No entanto, segundo Cunha, não é possível estimar em quanto tempo transcorre em humanos, tendo em vista que outros fatores podem estar associados, como a questão genética. A parte do estudo realizada no Brasil foi feita com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Médica dermatologista pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em tricologia, Juliana Toma, diz que os cabelos brancos costumam começar a aparecer após os 30 anos. “Geralmente, a idade que a pessoa começa a ter os fios brancos é por volta dos 30 anos em brancos, 35 anos em asiáticos e 40 anos em negros. Existe um estudo, feito em pessoas brancas, que mostra que, aos 50 anos, 50% delas terão pelo menos 50% dos fios grisalhos”. Ela alerta que pessoas que apresentam os fios brancos quando ainda são muito jovens ou em um processo acelerado devem buscar um espe­cialista para descartar outras causas. “Nem sempre é o estresse. Pode ser uma forma inicial do vitiligo, que está aparecendo apenas no couro cabeludo, doenças nutricionais, hipotireoidismo, drogas ou doenças do couro cabeludo”. Se a pessoa decidir tingir os fios grisalhos, Juliana recomenda fazer o procedimento com um profissional qualificado, usar sempre produtos dentro do prazo de validade e não repetir o uso da tintura ou tonalizante em caso de reação alérgica.