Fale agora ou cale-se para sempre!

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O primeiro semestre de 2020 não foi fatídico apenas em relação às consequências do novo coronavírus, com milhares de mortes e colapso na saúde e na economia. Os dados do Re­gistro Brasileiro de Transplantes indicam que houve também uma redução na taxa de doação e transplante no país. Embora a recomendação da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos tenha sido manter as atividades sempre que possível, o sistema de captação e transplantes foi afetado.

Desde as viagens para a busca do órgão até os leitos, que inicialmente seriam destinados para a recuperação do paciente no pós-transplante, assim como os recursos médicos e equipamentos, passaram a serdestinados para aqueles com covid-19. Isso significa que centenas de pessoas, cujas vidas dependem de um transplante continuam vendo sua saúde se deteriorar e suas chances de cura irem embora.

Nesse mês está sendo promovida uma campanha nacional chamada Setembro Verde como forma de sensibilizar e esclare­cer as dúvidas da população sobre a doação de órgãos e tecidos. Quando é constatada a morte cerebral significa que ocorreu uma perda irreversível das funções vitais que mantêm a vida, como a consciência e a capacidade de respirar. A legislação bra­sileira é uma das mais seguras em relação a esse diagnóstico e exige duas avaliações clínicas por médicos diferentes.

São profissionais capacitados e neutros, que não partici­pam das equipes de retirada dos órgãos. É exigido também um exame complementar que mostra a ausência de fluxo cerebral e atividade elétrica. Somente após essa constatação é que o indivíduo se torna um potencial doador de córneas, rins, fígado, coração, pulmão, pâncreas entre outros órgãos e tecidos, inclusive os ossos.

Além do medo que as pessoas têm desse diagnóstico de morte encefálica não estar correto ou a esperança de que ele se reverta (o que é impossível), outro dos principais impedi­mentos à doação de órgãos é a falta de comunicação sobre o tema. Como a doação de órgãos geralmente implicana morte de uma pessoa (também existe a doação inter vivos, mas é outra história, pois o próprio doador autoriza), ela é permea­da por um tabu, a morte.

Por mais esclarecida que a pessoa seja, dificilmente costuma conversar sobre ela. Isso inclui dizer para seus familiares sobre suas crenças e desejos, como o de se tornar ou não um doador de órgãos. Ou, ainda, a pessoa pode até tentar iniciar o assunto, mas alguém já o interrompe: “Você está louco, para que falar sobre uma coisa dessas agora? Para com isso, não faz bem, atrai!”.

A legislação brasileira determina que o corpo é da família. Não existe uma maneira ou documento de registrar o desejo de se tornar um doador de órgãos. A única alternativa continua sendo a conversa franca, livre de informações erradas e precon­ceito, sobre a sua vontade caso venha a morrer antes que os seus familiares. Deixe claro aquilo que você acredita, explique o motivo e peça a seus parentes que façam valer o seu desejo.

Se você acredita na continuidade da sua vida por meio de um ato capaz de salvar muitas outras (em média, oito), decla­re-se doador de órgãos. É aquela velha máxima, fale agora, ou cale-se para sempre. Na hora da decisão o que irá prevalecer serão as lembranças sobre o que você defendeu e reivindicou em vida. Portanto, não tenha medo, fale sobre o assunto e assegure que a sua vontade será cumprida.

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