Futebol, política, paixões e consciência

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professor

No ano passado o craque do Barcelona Lionel Messi foi aplau­dido em pé pela torcida do Real Betis, após marcar três golaços na vitória por 4 a 1. Outro jogador do mesmo time já teve essa honra, foi Ronaldinho Gaúcho em 2005, que arrasou no clássico contra o arquirrival Real Madri. Naquele dia histórico os madridistas viram sua equipe ser derrotada em casa e, num belo exemplo de civilidade, também reconheceram o talento do adversário com palmas. Por maior que seja a paixão futebolística, não existe qual­quer demérito em admitir a superioridade de outrem e também as nossas limitações.

Em muitos momentos, a política lembra o futebol. São milhares de torcedores em campos opostos defendendo com paixão suas cores, bandeiras, tradições e convicções. Ocorre que, diferente da torcida, os jogadores e políticos trocam de camisa conforme seus próprios interesses e geralmente não possuem o compromisso da fi­delidade, mas com seus gestos e palavras tornam-se catalizadores de emoções que provocam as mais diversas reações, inclusive confron­tos violentos, agressões e mortes.

Após dois anos das últimas eleições gerais no país, várias pessoas continuam reproduzindo o cenário de polarização e conflito, agindo como torcedores fanáticos. Mais do que defender seus partidos e ideologias, elas insistem em tentar proteger seus líderes e aceitam todos os seus atos, sem qualquer questionamento. Também não conseguem enxergar qualquer mérito nos oponentes ou nos que simplesmente discordam de determinadas posturas. Quem está do outro lado também usa uma lente que somente enxerga defeitos e dificilmente reconherá as boas práticas.

Guardando as paixões e analisando francamente o cenário atual surge a pergunta: nossas autoridades federais, estaduais e municipais estão cumprindo seu papel? Não sejamos precipitados, antesva­mos refletir e tentar responder outras perguntas. Anunciaram as reformas trabalhista e previdenciária, como a salvação do país. Elas foram efetivas ou precarizaram ainda mais a nossa vida? E a econo­mia, melhorou para todos, para a maioria ou apenas para os grupos poderosos de sempre? E no meio ambiente, avançamos ou retroagi­mos? Nem perguntaremos sobre a educação, a habitação e a cultura.

Sei que você dirá não ser possível responder em um ano atípico em razão da pandemia. Esta é a desculpa para ignorarmos nossas mazelas? Então falemos de saúde pública e luta contra o coronaví­rus. Sem fake news, quais foram as ações efetivas dos governante? Milhões de brasileiros perderam o emprego, outros milhões foram infectados e mais de 90 mil perderam a vida, enquanto isso testemu­nhamos incontáveis polêmicas improdutivas, discursos negacionis­tas e anticientíficos, muita omissão e poucas ações eficazes.

Por mais que torçamos pela legenda ou grupo de coração é ine­gável a incapacidade e inabilidade de grande parte dos gestoresatuais em enfrentar crises e resolver problemas. Quando o time é ruim culpamos o gramado, a bola, a arbitragem e poucas vezes reconhece­mos que a situação não está boa, que não teve preparação e plane­jamento e que, com uma turma de pernas de pau, dificilmente se conquista campeonatos.

Na política os campeonatos estaduais e o nacional seguem até 2022, enquanto os municipais tiveram as finais alteradas para 15 de novembro. Teremos nova oportunidade para escolhas mais acer­tadas e independentemente de vencedores e vencidos, podemos ser pessoas melhores vivendo em cidades melhores e, quem sabe, formando uma grande nação, mas para tal, precisamos exercitar a humildade, a paciência, a empatia e capacidade de enxergar além. Reconhecer os erros próprios ou do nosso time e as virtudes alheias, não é sinal de fraqueza, pelo contrário é uma prova de altivez.