Já observou que todos nós temos alguém que nos conhece demais? Isso incomoda? Pois saiba que é algo de muito valor. Um dia pode garantir a sua vida. É fato, acon­teceu aqui!

Pessoa ligeiramente metódica, dada a ter práticas peri­ódicas, rotina de ir ao médico (aquele antigo “de família”, amigo de bate-papo), com quem se trata há décadas. De­pois de uma consulta repleta de histórias bem humoradas, leva uma guia (do convênio, era da medicina de grupo, pa­ciente particular não existe mais); são vários exames – os mesmos de sempre (sangue, urina) e falar sobre colesterol, glicemia, plaquetas é como discutir os gols do Corinthians. Para o paciente se tornou muito simples após alguns anos, sem nunca ter pensado numa carreira médica: seu negócio sempre foi outro, longe das ciências da cura e manutenção da saúde (nem a dos animais, com quem mal se relaciona).

Guia nas mãos não faz efeito, precisa dos resultados dos exames lacrados, porque conferir os valores de referência eleva a pressão arterial: uma vez deixou o envelope na mesa da secretaria, viajou, telefonou de longe pra saber e decidir se voltaria. Corajoso (?) só volta ao “coaching”(o­rientador) com a certeza de que está tudo bem; retorno só para uma receitinha! Zeloso, o cardiologista resolve submetê-lo a um eletrocardiograma, ali mesmo no consul­tório. De imediato ficou sabendo que a “caixinha” funcio­nava otimamente. Eufórico, perguntou ao médico se podia continuar suas “peladas” ao final de semana. Novamente, “sim, você está ótimo!”

Aí o doutor arremata: “daqui a um ano vou te pedir o cateterismo”. Teve um estalo, tem algo estranho: “Doutor, porque daqui um ano?” A resposta: “Como você é diabéti­co, o cateterismo mostra melhor lá por dentro.” O curioso paciente retrucou: “Dr., vamos antecipar a pesquisa?”

O médico: “Não, pra quê? Você não tem dor.” O insis­tente paciente informou: “Dr., não vou gastar nada, tenho convênio.” O médico: “É um exame invasivo, deixa pra lá.” Foi quando o tom do dialogo se alterou: “Dr., pois eu quero fazer o cateterismo agora.” O médico, descontente, abriu a gaveta, tirou o talonário da Unimed e disse: “Você é teimoso, como seu irmão. Está aqui, vá.”

Feito o cateterismo, o paciente quase não voltou pra casa. Estava com obstruções, vivendo porque o coração desenvolveu pequenas veias para irrigá-lo. Do cateterista, ouviu: “O senhor precisa operar já para não ter um infarto de grandes proporções, provavelmente fatal. Liguei para o seu médico e ele o espera para encaminhar ao cirurgião.” Foi aquele choque!

Na volta ao consultório, não havia mais o que falar. O amigo médico visitou o paciente na hora da cirurgia (mal sinal…). O paciente recebeu três pontes, experimentou sete dias de UTI, pneumonia, anemia, família avisada de que “afundou e só depende dele mesmo” (deste dia lembra das visitas – não queria falar com ninguém), mais oito dias no quarto e a saída heróica!

Passados nove anos, “peladas” nunca mais, orgulha-se do “teimoso” que foi, é, e continuará assim. É preciso saber quando contrariar o médico, não é a toda hora.

Pois, eu sabia que estava certo. Teimei! Estive perto do fim, mas adiei, graças a Deus!