Por André Cáceres

O que uma vencedora do prêmio Nobel de Economia tem a ver com a menina de nove anos que comoveu o Brasil ao ser fotografada trocando máscaras por alimento? Para Luciano Huck, tudo. O apresentador, que desde 2020 vem conduzindo uma série de entrevistas no Estadão com intelectuais e lideranças de todo o planeta, reuniu o conhecimento adquirido nesse ciclo de conversas no documentário 2021: O Ano que não Começou.

Huck mostra que a crise sanitária não alterou as tendências globais, mas acelerou fenômenos já em curso. A partir dessa constatação, o documentário explora assuntos delicados sem ficar em cima do muro, embasado pelas reflexões de intelectuais prestigiados, mas também pelo ponto de vista de pessoas humildes que vivem os problemas na pele. Em pouco mais de 40 minutos, Huck passeia por temas como desigualdade econômica, vulnerabilidade social, educação, mudanças climáticas e política, não se limitando a diagnosticar problemas, mas buscando oferecer propostas e soluções para cada uma dessas questões.

Huck respondeu às seguintes perguntas do Estadão:

O que você aprendeu com esse ciclo de entrevistas no Estadão?

É possível construir um futuro, encontrar saídas e retomar a esperança, mas isso só vai acontecer se a sociedade civil responder a um chamamento e se unir em torno do bem comum. Mesmo com toda dor, angústia e incertezas que a pandemia nos impõe, existem caminhos possíveis – ancorados na ciência, bom senso, escuta, diálogo, criatividade, iniciativa, capacidade de execução e boa liderança. Há três décadas eu viajo o País todo e amplifico a voz dos brasileiros, uma população sofrida que enfrenta suas dificuldades com dignidade e determinação. Essa gente traz novos significados à ideia de empreendedorismo e sempre é motivo de inspiração. Pois os brasileiros, que deram tantas lições de solidariedade e resiliência na pandemia, infelizmente estão pagando um preço muito mais alto do que deviam em função do descaso e do negacionismo. Mas as saídas não vão cair do céu. As conversas que publiquei aqui no Estadão foram uma tentativa de entender este mundo em processo de drástica mudança, mas também, e sobretudo, uma maneira de contribuir com a esfera coletiva, ajudando a pensar em soluções que nos façam atravessar este mar revolto e chegar a uma sociedade mais democrática, inclusiva e igualitária.

Como a polarização política pode prejudicar o Brasil no combate à desigualdade e ao racismo?

Na crise de 2008, Warren Buffet disse que as grandes crises globais são como uma grande maré baixa que pega os banhistas desprevenidos, revelando quem está nadando de shorts e quem está pelado. A época, a analogia fazia referência ao sistema financeiro. Trazendo para a atualidade, em meio à terrível crise sanitária e econômica que estamos vivendo, a pandemia mostrou que boa parte da sociedade estava alheia a debates fundamentais que precisamos enfrentar. Se não comprometermos a sociedade como um todo – inclusive o 1% da elite brasileira que sempre foi acusada de inação quando o tema é desigualdade e racismo – a buscar caminhos mais igualitários do ponto de vista econômico e racial, vamos colapsar. Até para ser rico é melhor ser rico em um país igualitário, em que as coisas funcionem melhor. Enfrentar nossas desigualdades e gerar oportunidades independentemente de raça, cor ou credo são alicerces que deveriam voar acima da camada de turbulência ideológica e política. Mas não tem sido assim. O negacionismo, o tecnopopulismo e a miopia de objetivos unicamente eleitorais insistem em arrastar o debate para uma vala rasa. De certa forma, vivemos a apoteose das democracias iliberais – um monstro que se alimenta do isolacionismo e do nacionalismo econômico, da obsessiva tentativa de controlar a mídia, a polícia e a Justiça e, especialmente, do exercício constante do ódio. Algo muito alarmante. As consequências são terríveis para a vida das pessoas, das famílias, do povo. Não cabe chorar o leite derramado, mas convocar um reagrupamento político e instalar uma contranarrativa a fim de deter o obscurantismo e os extremos antidemocráticos. A sociedade precisa reagir, em defesa do direito de sonhar, de ter esperança. Num mundo mais conectado e rápido, a política binária não faz o menor sentido

Como a educação pode ser reinventada após a pandemia?

O Brasil não precisa de cimento e tijolo para qualificar a sua educação. Temos quase 200 mil escolas públicas e quase 50 milhões de crianças na escola. Mas, se já somos um país conectado, com mais chips de celular ativos do que cidadãos, temos um governo e um sistema de educação ainda muito analógicos É importante reconhecer os esforços de digitalização e acesso à educação espalhados pelo Brasil, mas eles ainda são raros e insuficientes. A verdade é que nossas crianças mais pobres perderam dois anos letivos. A desigualdade digital e a não priorização da educação ao longo da pandemia tiveram um impacto violentíssimo. Escolas estão até hoje fechadas. Os alunos em casa, desconectados há tanto tempo. Isso trará enormes consequências geracionais. Temos de organizar uma resposta à altura desse colapso humano, uma resposta que ao mesmo tempo valorize o professor e acelere a incorporação de novas tecnologias. Internet de qualidade para todos é um item de primeira necessidade, por exemplo. É preciso também pensar na educação como ferramenta de capacitação profissional. O trabalho está passando por uma verdadeira revolução. Temos de agir com prontidão para gerar empregos – e gerar empregos para os setores mais modernos da economia, apostando no ensino não só técnico, mas especialmente no ensino tecnológico. A educação é a ferramenta mais poderosa de transformação social. Não existe desenvolvimento e mobilidade sem uma rede de educação inclusiva. Se a educação não for a prioridade número 1, 2 e 3 no Brasil, não vamos avançar.

O esforço global suscitado pela pandemia pode nos ajudar de alguma forma a lidar com as mudanças climáticas?

Infelizmente o Brasil hoje não tem a capacidade de liderar qualquer agenda global. Ao longo de todo o século 20, mesmo sendo um país pobre e em desenvolvimento, nós sempre fomos respeitados e reconhecidos pela nossa arte, arquitetura, música, cultura, esporte e agricultura. Na década de 50 fomos capazes de construir uma capital em 5 anos, tivemos a sensibilidade de encomendar uma cidade pelo olhos de gênios como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Fizemos o primeiro palácio aberto, horizontal, envidraçado, nivelado na altura “do povo”. Longe do estilo rococó que materializava “o poder” ao redor do planeta. Este Brasil infelizmente sumiu. Foi sufocado por uma visão míope das potencialidades brasileiras e atropelado por quem adora fazer apologia da mediocridade. Mas a pandemia foi só um aviso da natureza. Um alerta sobre os maus tratos que ela vem sofrendo principalmente nos últimos 100 anos. A mãe de todas as pandemias será a mudança climática. E esta não tem vacina que resolva. A agenda da sustentabilidade vai se impor. Quer dizer, já está se impondo. Não só porque é a escolha moralmente correta, mas também porque é importante para o sucesso dos negócios. Regimes autoritários têm, pela sua natureza, problemas de sustentabilidade. Tenho fé de que as lideranças mundiais terão eventualmente que acolher uma visão ecossistêmica da realidade. O Brasil pós-2022 pode e deve liderar esta agenda verde, da agroindústria sustentável, da preservação, da floresta em pé, da proteção dos nossos povos ancestrais. Nosso país tem tudo para ser referência global nas áreas de alimentação, energia e meio ambiente.

Como o Brasil pode aproveitar seu potencial – econômico, social, ambiental – plenamente nos próximos anos?

Não há vento bom para uma nau sem rumo. O Brasil precisa de um projeto de nação. Um projeto de arquitetura, engenharia e construção. Tenho investido boa parte do meu tempo, em ouvir, ouvir e ouvir mais um pouco. Um ciclo intenso de escuta de muita gente que tem muito a dizer em áreas que acredito serem fundamentais para o salto de desenvolvimento social, econômico e ambiental que o Brasil merece. E posso afirmar que não faltam boas ideias e principalmente gente capacitada para executá-las la em todas as áreas. Mas precisamos desconstruir a crença de que o nosso país é tão especial que vamos dar certo de qualquer jeito. Não é assim. Para finalmente sermos o país do futuro, que sempre acreditamos ser, vamos ter que colocar a mão na massa. Temos de juntar essas pessoas capacitadas e comprometidas e colocá-las para trabalhar na mesma direção. Vamos ter de definir nosso propósito e nossa missão. Quando você tem clareza sobre isso como nação, as oportunidades aparecem e o mundo vem até você. Nada virá por geração espontânea. Precisamos resgatar o respeito e a confiança internacional no País, formar novas lideranças, iniciar novos ciclos políticos e cuidar das nossas contas com responsabilidade para poder cuidar das nossas pessoas Um esforço como nunca fizemos.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.