MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL

Com a renda comprimida e o desemprego em alta, ter carne vermelha no prato pesa­rá cada vez mais no bolso dos brasileiros. E o cenário não será diferente se a alternativa escolhida for o frango, os ovos ou a carne de porco. Especia­listas projetam que a inflação para as proteínas vai superar a marca de 10% este ano, após já ter disparado em 2020.

O aumento previsto para 2021 está bem acima da esti­mativa para a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 5,9%. De acordo com a consultoria LCA, a maior alta neste ano continuará sendo no preço da carne de boi (17,6%), seguida da de porco (15,1%) e de frango (11,8%).

Alternativa às carnes, o va­lor do ovo de galinha também deve subir (7,6%). Já a Associa­ção Brasileira de Supermercados (Abras) prevê um aumento nos preços do frango entre 10% e 15% já no fim de julho e início de agosto. Essas previsões che­gam num momento de queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, que já reclamou em público do reajuste dos pre­ços da carne, do arroz, do gás de cozinha e dos combustíveis.

Segundo o presidente da As­sociação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo San­tin, as razões para o aumento da carne bovina diferem dos moti­vos para as outras proteínas. En­quanto os produtores de gado tiveram redução na produção e maior exportação, a culpa pelo preço maior do frango, do porco e dos ovos recai sobre os insu­mos para a criação dos animais.

De acordo com dados da Embrapa, os custos de produção em geral subiram 52,30%, para o frango, e 47,53%, para os suínos, nos últimos doze meses. Maté­rias-primas para a ração, o mi­lho teve alta de preços de 68,8% em 2020, enquanto a soja ficou 79,4% mais cara no atacado. As projeções para 2021 são de au­mento de 39,8%, para o milho, e de 7,2%, para a soja.

Os produtores alegam que a única saída é o repasse dos cus­tos para os preços ao longo da cadeia, até chegar às gôndolas dos supermercados. Santin ex­plica que, até agora, os frangos comercializados na ponta foram criados, por exemplo, com o mi­lho vendido a R$ 50 a saca – va­lor que disparou para R$ 90 nos últimos meses.

“Há um prazo de produção até chegar às prateleiras, agora que estão começando a chegar os frangos que estão comendo o milho mais caro. As empre­sas terão de repassar o preço ou, então, quebram”, completa. De acordo com o vice-presidente da Abras, Márcio Milan, em junho de 2020 as famílias gastavam em média R$ 36,62 por mês com o consumo de frango. Com o au­mento do preço do produto e a substituição da carne bovina, o gasto passou para R$ 43,95 no mês passado.

“Há uma tendência de alta daqui para frente, mas esse au­mento para chegar à ponta vai depender dos níveis de estoque de cada empresa. Os supermercados vão negociar exaustivamente os preços. Quando não consegui­rem negociar mais, vão repassar para o consumidor”, afirma.

Substituição
Com o orçamento pres­sionado pela alta de preços dos alimentos, combustíveis e energia elétrica, entre outros itens, muitos brasileiros têm alterado a lista de compras. O pesquisador Thiago Bernardi­no de Carvalho, do Centro de Estudos Avançados em Econo­mia Aplicada (Cepea), da Uni­versidade de São Paulo (USP), afirma que os cortes bovinos, mais caros, são trocados pela carne suína e pelo frango.

No fim da cadeia de trocas, está o ovo de galinha. “O ovo é o destaque, porque é mais bara­to, só que a demanda está mais aquecida, e o custo de produção também subiu”, completa. Mi­lan, da Abras, aconselha que os consumidores reforcem as pes­quisas de preço e façam subs­tituições, quando for possível.

IGP-10
O Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) desacelerou a alta a 0,18% em julho, após ter aumen­tado 2,32% em junho, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV) nesta sexta-feira, 16 de julho. Quanto aos três indicadores que compõem o inderxador de ju­lho, os preços no atacado medi­dos pelo IPA-10 tiveram queda de 0,07% no mês, ante uma ele­vação de 2,64% em junho.

Os preços ao consumidor verificados pelo IPC-10 apre­sentaram aumento de 0,70% em julho, após o avanço de 0,72% em junho.

Já o INCC-10, que mede os preços da construção civil, teve alta de 1,37% em julho, depois de subir 2,81% em junho. O IGP-10 acumulou um aumento de 15,52% no ano. A taxa em doze meses ficou em 34,61%. O período de coleta de preços para o indicador de julho foi do dia 11 de junho a 10 deste mês. As altas nos preços das passagens aéreas (26,99%), energia elétrica (3,86%) e gasolina (1,42%) aju­daram a sustentar a inflação ao consumidor dentro do IGP-10 de julho.