Janeiro: fé, religião e política

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Janeiro é um mês repleto de efemérides interessantes tais como o dia de São Sebastião, Padroeiro de várias cidades, entre as quais Ribeirão Preto e Rio de Janeiro, comemorado no dia 20. Apesar de confundido com Santo Expedito, por Regina Duarte, o santo possui um grande número de devotos e uma linda história.

Segundo ensinam, nascido na França, foi cedo para a Itália e tornou-se capitão do exército do Imperador Maximiano, denuncia­do recebeu a ordem de renunciar à sua fé em Jesus Cristo e diante da negativa foi condenado a uma pública e cruenta. Recebeu várias flechadas e foi deixado para sangrar até a morte. Ele resistiu, conti­nuou vivo e, depois de recuperado voltou a evangelizar e novamente colocou-se diante do Imperador para solicitar que parasse de perse­guir os cristãos. Da segunda vez foi açoitado até a morte. Ele levou a fé até as últimas consequências, mas não ameaçou tão pouco matou ninguém, ao contrário, entregou a própria vida.

Na sequência, 21 de janeiro é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Os dados desta prática no Brasil são alar­mantes, mas na Baixada Fluminense uma situação chama a atenção: o chamado Bonde de Jesus. O grupo formado por traficantes que se dizem convertidos e evangélicos, promove ataques a terreiros de umbanda e candomblé.

Temos, ainda, o 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, página vergonhosa onde grupos sociais considerados “inferiores”, pelos nazistas, como negros, homosse­xuais, judeus, Testemunhas de Jeová e ciganos, sofreram todas as barbáries nos campos de concentração. Curiosamente neste mês o país ficou estarrecido com o pronunciamento do ex-secretário da cultura em clara apologia ao nazismo.

Observamos que as três datas trazem algo em comum: a relação entre fé, religião e poder político e como as duas primeiras podem ser utilizadas como instrumento de dominação. As religiões exercem grande influência na forma que as pessoas enxergam e pensam o mundo e historicamente reis, imperadores e líderes em geral souberam usá-las. A Bíblia e os livros escolares estão recheados de exemplos: Sadraque, Mesaque e Abede-nego foram lançados numa fornalha ardente, a mando do rei Nabucodonosor; João Batista foi decapitado; Jesus e vários discípulos crucificados; Joana D’Arc foi queimada viva…

Na atualidade continua sendo instrumento de segregação de mi­norias, limitando o acesso a direitos humanos, criando uma legião de refugiados, promovendo divisões em várias nações e fomentando vários conflitos. Mais existe uma esperança e duas igrejas tradicionais dão im­portantes demonstrações de estímulo à compreensão e diálogo.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia organizou o Departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa que “não só se preocupa com a liberdade religiosa dos membros e das organizações e entidades que mantém, mas também apoia o direito irrestrito à liberdade religiosa para todas as pessoas, independentemente de sua filiação religiosa”.

A Igreja Católica, através do Concílio Vaticano II e do documen­to Nostra Aetate, exorta seus filhos exercitarem “a prudência e amor, através do diálogo e da colaboração com os seguidores de outras religiões, testemunhando sempre a fé e vida cristãs, reconheçam, mantenham e desenvolvam os bens espirituais e morais, como tam­bém os valores socioculturais que entre eles se encontram”.

Falando de religiosidade e de janeiro, não podemos esquecer de Salvador, na Bahia, onde mais de um milhão de pessoas estiveram mobilizadas da Lavagem do Bonfim e no cortejo com grupos de entidades católicas, afoxés, blocos afro e representantes dos terreiros de candomblé. A novidade foram evangélicos distribuindo “fitinhas do Senhor Jesus” para substituir as “fitinhas do Senhor do Bonfim”.

Em um país com grande divisão ideológica, respeitar os locais e liturgias religiosas; garantir a inviolabilidade e as liberdades indivi­duais de crença, credo, culto e religião é dever de todos.