Larga Brasa

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Entregou o ouro
Nos tempos em que a radiofonia de Ribeirão Preto era exem­plo para todo o Brasil, havia em uma rádio um cidadão que era “pau para toda obra”. Embora tivesse reduzida condição mental, tinha noção do certo e do errado e estava sempre em polêmi­cas com os famosos daquele tempo. No entanto, era prestativo e convivia com todos que o respeitavam pelas suas condições especiais. Um grande condutor de programas de auditório era o especial cliente do rapaz que era solteiro, ganhava alguns trocados da emissora para levar papéis para Cartório e docu­mentos para bancos e também para entregar mercadorias nas residências dos grandes e famosos daqueles tempos.

Birra de uma entrega que era distante
Havia alguma entrega que ficava embirrado e arrumava todos os tipos de desculpas para não fazer: a entrega de carne, ar­roz e outros produtos comprados no açougue e nos armazéns. Demorava, mas cumpria sua tarefa para ganhar o seu cigarro e alguma bebida leve. Com o mesmo locutor apresentador de programas de auditório ele havia tido um desentendimento que quase o fez deixar de comparecer à rádio na rua Gene­ral Osório. Como sempre foi prestativo, solidário e gostava de pertencer ao meio, mesmo não sendo locutor ou ser em­pregado em outra função, continuava a fazer suas entregas caminhando com sol ardente pelas ruas de São Sebastião de Ribeirão Preto.

Ordens são ordens
O grande condutor de programas de auditório, que veio do Rio de Janeiro e diziam que ele havia até ensinado o Silvio Santos a ser o apresentador que é hoje, chamou o prestador de ser­viços para entrega de carne em sua casa e em outros locais. O rapaz ficou meio encabulado e disse que na casa dele não iria, pois sua mulher “era muito chata”. Quase deu confusão. Mas aceitou a entrega. Ele tinha outros locais por onde pas­sar. Juntou as encomendas e partiu para a ação . Ganhou uns trocados e caminhou de novo por ruas com sol do meio dia. Ele foi primeiro aos outros lugares e entregou os embrulhos e, por último foi à casa do apresentador de programas de au­ditório. A esposa que analisava os produtos com lupa, abriu o embrulho e viu a carne que estava lhe sendo entregue. Come­çou a olhar as pelancas, os nervos e a qualidade do produto. Colocando a mão na cintura, com ares de arrogância ela disse: -“Fulano, você quer me dizer em que lugar meu marido com­prou estas porcaria de carne?”. Ele respondeu: -“No açougue, ele escolheu e eu fui buscar”. Ela retrucou: -“Não havia carne melhor para você trazer?” O rapaz juntou todas as suas má­goas do passado, presente e do futuro e respondeu: -“Carne melhor tinha. Mas ele mandou levar o filé mignon para a casa da amante”. Aí foi uma loucura. Ela passou a mão no chinelo e queria bater no entregador. Ele gritava: -“Não é culpa minha, é culpa do seu marido”. Deu Boletim de Ocorrência. O apre­sentador ficou em um hotel por vários dias. O cidadão de boa vontade e recursos pequenos se vingou. Perguntado pelos co­legas da rádio o que havia ocorrido ele simplesmente dizia: -“Eu falei a verdade. Para ela, ele mandava carne de terceira e para a amante filé mignon”. Quebrou o pau.

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