Limites da nossa vida

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O conhecimento médico é tão amplo que a história registra que seus limites, desde muito antigo, são ilimitados. Durante a longa ocupação árabe na Península Ibérica, dois grandes filósofos de Cór­doba, Averrois, de origem islâmica, e, Maimônides, judeu, dedica­ram-se também à atividade médica. O mesmo se deu com o persa Ibn Sina que emprestou seu nome para batizar a medicina.

No início do século XX, fim do século XIX,no Brasil, até mesmo no Rio de Janeiro, então capital nacional, o povo estava mergulhado em várias epidemias e endemias. O paulista Oswaldo Cruz, suporta­do pelo Presidente Rodrigues Alves, desenvolveu projeto no sentido de atacar a malária por meio da vacinação obrigatória.

Houve revolta popular sustentada na ideia segundo a qual numa democracia todo cidadão deveria estar livre para submeter-se ou não à vacina que assim não poderia ser obrigatória. Até mesmo Rui Barbosa defendeu tal posição. Houve revolta armada contra a vacinação. O Exército apoiou o Presidente da República e Oswaldo Cruz. A epidemia desapareceu. Sobrou para Oswaldo Cruz. Relatam seus contemporâneos que era vaiado pelos cariocas sobreviventes.

Após a criação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o Brasil foi testemunha de dois episódios que merecem estar na história médica: a) a guerra contra o mal de Chagas; b) a guerra contra a han­seníase, na época conhecida como “lepra”.

Os médicos desenvolveram o significativo trabalho no sentido de anular o mal de Chagas, lutando preventivamente contra sua origem, o ataque do “barbeiro”, inseto que vivia nas casas de pau a pique. Os médicos, com grande participação do Ministério Público estadual, fizeram um grande trabalho para desmontar o criadouro do inseto. As casas de pau a pique foram derrubadas e a doença praticamente desapareceu.

Quanto à hanseníase (lepra), o grande médico e professor Luís Marino Bechelli dedicou sua vida desenvolvendo trabalho no sentido de buscar um tratamento moderno para a doença. Até então os leprosos eram internados em “leprosários” e ali permaneciam detidos como se condenados a uma prisão.

Os leprosários foram extintos. O tratamento clínico foi ampliado. Hoje as pessoas atingidas pela hanseníase não são afastadas do âm­bito social, tratadas clinicamente convivem com seus familiares, no seio de sua sociedade, graças ao trabalho realizado pelo Dr. Bechelli e sua equipe.

Na época, segunda metade do século XX, os trabalhadores eram conduzidos para o seu trabalho na carroceria de caminhões, quase sempre muito rodados. Os acidentes eram comuns e as mortes e as deficiências físicas eram constantes.

Muito foi feito no sentido de impedir o absurdo. Dois Promo­tores de Justiça da região desenvolveram um grande trabalho no sentido de por fim ao abuso. Tiveram êxito. Salvaram um número desconhecido de vidas.

Os promotores de Justiça, que mais se destacaram no trabalho histórico de lutar pela integridade física e psicológica de trabalha­dores, merecem também referência expressa: doutores Antônio Alberto Machado e Marcelo Goulart Pedroso – este último, naquela época, sua residência atingida por uma bomba.

O que a história revela sobre os fatos que a constituem, inclusi­ve nos nossos dias, quando se discute a origem e não a eficácia da vacina contra o “covid”, são os degraus de superação que ainda de­pendem muito mais das coisas do que da vida das pessoas. Ou seja, os acontecimentos nem sempre verdadeiros são muitíssimo mais im­portantes do que a morte dos atingidos. O seu registro define o talhe do rosto da cidadania que peregrina pelas tortas veredas hodiernas.

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