Fernando Kaxassa, uma doçura de ser humano, tem mais alguma coisa em seu nome, mas é assim que ele é conhecido em Ribeirão Preto e pelo Brasil afora, principalmente na área de cinema e cultura. Kaxassa é respeitadíssimo entre artistas. Pra começar minha crônica de hoje, liguei pro querido amigo, pois da última vez que escrevi sobre sua pessoa ele tinha sido atropelado 25 vezes.

Já foi atropelado por tudo que tem rodas, não consegue pensar parado. Agora, já são 27 atropelamentos e nosso personagem de hoje, rindo muito, me contou que da última vez herdou ferimentos no nariz. E completou: “Buenão, tô com o nariz raspado e torto”.

Sócrates o adorava – Kaxassa foi produtor do programa de TV do Magrão, “Papo com o Doutor”. O cineasta é dono de uma memória de se admirar, é um contador de causos de primeira e sempre bem-humorados. Sócrates passava as tardes-noites em sua companhia, rindo pra dedéu.

Certa noite, Kaxassa contou pra mim e pro Sócrates essa história. Disse que quando o artista plástico Paulo Camargo veio de Belo Horizonte pra Ribeirão Preto, um fã ofereceu um lugar para ele morar, um casarão na rua Florêncio de Abreu esquina com a Marcondes Salgado – existe até hoje.

A boemia fez morada ali, era festa todas as noites, Paulinho acolhia toda a classe cultural, entre eles Tarciso, que cantava muito. Certa noite, um dos frequentadores apareceu por lá com quatro moças que havia conhecido num bar. Elas não tinha mais como voltar pra Santa Rita do Passa Quatro, aceitaram dormir no casarão e ir embora no primeiro ôni­bus da manhã seguinte. Muito birinaite, caipirinhas e cama. Paulinho, no maior pileque, dormiu com uma loiraça.

As moças acordaram cedinho e vazaram, Tarciso chegou quase amanhecendo e, morto de sono, viu sua cama ocupada. Então, decidiu se deitar no lugar da loira que dormia com nosso artista plástico Paulo Ca­margo (vai vendo). Paulinho acordou meio lusco-fusco, tentou acariciar os cabelos da loira e sentiu algo estranho. Alguma coisa não batia. Ten­tou novamente e acabou acordando Tarciso, que com aquele vozeirão, disse: “Que é isso, Paulinho? Tá me estranhando, parceiro?”

Com o dia claro tudo se esclareceu, mas Paulinho, inconformado, dizia: “Não entendi uma coisa… Deitei com uma tremenda loira e acordei com um baita dum negão (hehehehe)”. Kaxassa mais alguns amigos chegaram de Brodowski, onde foram encharcar o verbo – naquela época a rodoviária era onde hoje está o Corpo de Bombeiros, na avenida Fábio Barreto. Deram banho na garganta ali mesmo e depois foram a pé para o Centro.

Na rua José Bonifácio tinha uma funerária que havia descartado um caixão de defunto, na medida exata do Kaxassa, que era o mais magro da turma. Os boêmios decidiram aprontar. Foram até a praça da Catedral, colheram muitas flores e, antes de chegar no Cabaré do Peru, na Florên­cio de Abreu, enfeitaram o caixão com Kaxassa fazendo pose de morto.

Eles chegaram, o Cabaré estava lotado, colocaram o caixão sobre duas mesas e disseram: “Gente, o Kaxassa morreu e pediu pra ser velado nos bares onde bebia”. Foi uma choradeira, com orações e muita bebida – e o cineasta” segurando a onda, literalmente se fingindo de morto.

Saíram dali num cortejo de boêmios para o Lanches Árabe, um bar enorme na mesma rua, perto da São José. O dono era o Delcides, um tremendo munheca. Kaxassa ia lá todas as noites, mas havia três dias que não batia o ponto e o povo sentiu sua falta. De repente, chega o caixão e os amigos anunciaram a morte do Kaxassa. Foi muito choro e palavras bonitas até que Delcides falou, bem alto:

“A morte do Kaxassa tem que ser festejada, ele merece, hoje a bebida é por minha conta. O velório virou festa, todo mundo bebendo de graça e o morto ali, na maior seca. Os boêmios, antes de dar um gole, jogavam um pouquinho no caixão e falavam: “Essa é pra você, Kaxassa”.

Todo mundo bebendo de graça e ele não. De repente, o morto se levanta, voam flores pra todo lado e ele arremata: “Eu também quero beber de graça” Delcides ficou uma fera, querendo saber onde arrumaram um caixão de defunto aquela hora da noite.

Sexta conto mais.