Meu avô faleceu, Irmã Neófita!

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Desde muito cedo eu frequentava velórios. Quando morria alguém na vizinhança eu era o primeiro a ser avisado. Mesmo com pouca idade, consolava os familiares e ajudava a preparar o ambiente do velório na sala da residência dos fale­cidos (não havia velórios públicos, as pessoas eram veladas na própria casa). Rezava o Rosário várias vezes e proferia algu­mas palavras de conforto aos que iam chegando para solida­rizarem-se com os enlutados. Passava a noite nos velórios. Na minha infância, a pessoa era velada por vinte e quatro horas; não havia tanta pressa para enterrar os falecidos. Era, tam­bém, uma oportunidade de encontro de familiares, parentes e amigos. No Rio Grande do Sul os velórios eram fartos de boa comida e bebida. E eu provava de tudo, é claro!

Aos sete anos de idade, estando no segundo ano do então chamado primário, num dia chuvoso e com exame de mate­mática marcado na Escola Sagrado Coração de Jesus, com a enérgica e temida Irmã Neófita, professora de todas as disci­plinas, falecera um vizinho na mesma rua em que residia. Eu naturalmente passara a noite e a manhã no velório, animan­do as orações, cânticos e pregações de conforto. Todos me ouviam com grande interesse e seguiam as orientações de um moleque de apenas sete anos, chamando-me de “Mini Padre”!

O enterro estava marcado para as quinze horas e eu não queria perdê-lo de jeito nenhum. Não pensei duas vezes: ao chegar à escola, corri ao encontro da Irmã Neófita com cara de velório e muito sono e exclamei sem nem pestanejar: “Meu avô faleceu, Irmã Neófita!”

A irmã ficou consternada e pediu que os alunos de minha classe se unissem ao meu luto. Rezamos uma dezena do Terço e ela me dispensou para ir ao enterro. Ao invés do meu avô, fui ao enterro do vizinho e cumpri com todo o cerimonial.

A Irmã Neófita comunicou à Irmã Verena, diretora da escola, que ao ouvir a notícia do falecimento do meu avô, Rei­naldo Kasper, desmaiou. Quando voltou à consciência dizia ter tido uma visão beatífica: “Vi seu Reinaldo passar diante da escola por volta da hora do enterro dele. Estava montando num lindo cavalo. Deve estar precisando de nossas orações. Vamos à capela, irmãs, vamos rezar pela alma dele!”

Meu irmão mais velho estudava pela manhã e eu à tarde. Meu irmão mais novo naquele ano não pode estudar porque precisou cuidar de minha prima que nascera. O mais velho, ao chegar à escola no dia seguinte ao enterro, logo foi aco­lhido pela Irmã Neófita, que se desculpou por não ter ido ao enterro, pois fora avisada por mim muito em cima da hora. Meu irmão me desmentiu. Disse que meu avô não falecera, mas estava tomando chimarrão com minha avó diante do fogão à lenha, em casa.

Voltando da escola, antes do almoço, meu irmão já con­tou que eu mentira que meu avô faleceu para ir ao enterro do vizinho e ser dispensado do exame de matemática. Fiquei de castigo: sem almoço ajoelhado sobre grãos de milho até os joelhos sangrarem. Esse castigo não doeu tanto quanto o de ter de ir à missa dominical e pedir desculpas pela mentira à vinte religiosas. Ao final da missa, as Irmãs de Santa Catarina de Alexandria, enfileiradas, recebiam meu pedido de perdão, uma a uma. Nem sempre consigo “não mentir”, mas desde então compreendi que o pai da mentira é o demônio e aprendi que uma das coisas mais feias nas relações humanas é a mentira!

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