Missão planeta Terra

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Por Mariane Morisawa, especial para o Estadão

Matt Wolf costuma fazer filmes baseados em imagens de arquivo. Numa de suas buscas, topou com a foto de oito pessoas em macacões vermelho-sangue na frente de uma pirâmide de vidro. “Eu achei que fosse uma cena de filme de ficção científica”, contou, em entrevista exclusiva ao Estadão. Mas não. Eles faziam parte do projeto Biosfera 2, iniciado em 1991 nos Estados Unidos, quando Wolf ainda era um menino. Aqueles oito indivíduos passaram dois anos na estrutura autossustentável que reproduzia diversos biomas terrestres e pretendia investigar soluções para a vida fora do planeta.

Intrigado pelo material, o cineasta foi procurar as pessoas por trás do projeto e encontrou não só um material fotográfico e cinematográfico imenso, mas também uma história ainda mais fascinante, que é contada no documentário Missão Planeta Terra. O filme, exibido no Sundance Festival deste ano, está disponível nas plataformas Now, Vivo Play, iTunes/Apple TV, Sky Play, Google Play e YouTube Filmes.

O projeto Biosfera 2 era resultado de anos de trabalho do grupo liderado por John P. Allen, formado originalmente na São Francisco do final dos anos 1960, quando o movimento de contracultura estava florescendo. Eles viviam em comunidade e faziam projetos artísticos, mas também estavam interessados em formas de vida sustentáveis. Construíram um navio e viajaram o mundo. Interessaram-se pela arquitetura geodésica defendida por figuras como Buckminster Fuller, autor de Manual de Operação para a Espaçonave Terra, e daí para a Biosfera 2 foi um caminho natural.

“Um dos meus objetivos era mostrar como o projeto não veio de uma bolha, literalmente e figurativamente. Ela foi um produto da contracultura dos anos 1960”, disse Wolf. “As pessoas da contracultura não eram todas hippies, muita gente estava interessada na tecnologia e no futuro.”

Para fazer esses projetos todos, era preciso dinheiro. As ideias do Synergia Ranch sempre foram bancadas pelo próprio trabalho do grupo, como apresentações de suas peças, mas também por generosos doadores. Os paralelos com o Vale do Silício são inevitáveis, até porque muitos deles vieram do mesmo movimento de contracultura. “Eles estavam operando nesse modelo de startup antes disso existir”, disse Wolf. “Não digo que teriam sido bem-sucedidos como a Apple, embora a Apple tenha tido inúmeros fracassos pelo caminho. Mas era também um projeto atuando fora de instituições tradicionais, tendo um líder carismático à frente, e que estava tentando causar uma disrupção. Só que na época não existia um modelo para trabalhar fora do sistema.”

O grupo do Synergia Ranch estava acostumado a projetos pequenos, com boa taxa de sucesso. Mas a escala da Biosfera 2 era muito maior. “Eles atraíram muita atenção, e as coisas mudam quando há US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,1 bilhão) na mesa”, disse Wolf. “Foi aí que a coisa pegou, porque o projeto poderia ser ecologicamente sustentável, mas não era economicamente sustentável. Infelizmente, também é o problema que enfrentamos agora, quando procuramos no capitalismo a fonte e o modelo em que criaremos a sustentabilidade, sendo que os dois objetivos podem estar em contradição um com o outro.” O investidor foi Ed Bass, herdeiro de uma família que ficou rica com o petróleo.

Como era de se esperar num projeto desse tamanho, a Biosfera 2 passou por diversos problemas, da falta de oxigênio a problemas com a produção de comida. Allen, altamente centralizador, não agia com total transparência. A Biosfera 2 ficou tachada como um tremendo fracasso, e Bass mandou um interventor: ninguém menos do que Steve Bannon, estrategista de Donald Trump que também tem laços com os Bolsonaro. “Eu não sabia que teria acesso a fitas com sua voz”, disse Wolf. “E foi como se uma metáfora me tivesse sido entregue de bandeja. Ali estava um dos maiores vilões da política contemporânea, que convenceu o atual governo americano a sair do Acordo de Paris e tentou dominar a nossa Biosfera 1, tomando um mundo em miniatura, a Biosfera 2. É uma metáfora perfeita para nosso tempo.”

Mas o filme mostra que nem tudo foi o fracasso que se pintou. E dá uma chance para os membros do Synergia Ranch de contar sua história pela primeira vez. Ele acha que a história da Biosfera 2 serve como lição para hoje. “Existe uma alergia ao idealismo e um certo ceticismo em relação a pessoas que fazem projetos que são benevolentes”, disse Wolf. “Não deveríamos rejeitar a ambição de tentar coisas novas. Infelizmente, o grupo por trás da Biosfera 2 teve um confronto com os limites da boa vontade dos outros de imaginar futuros diferentes.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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