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Por Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão

Pedro Costa veio ao Festival do Rio, no final de 2019. Trouxe seu longa Vitalina Varela, que chegou precedido das melhores referências em festivais internacionais. Pedro faz filmes na contramão do cinema industrial. Consegue se destacar no cinema português, que teve/tem autores como Manoel de Oliveira, Miguel Gomes e João César Monteiro. Entrevistado pelo Estadão, Pedro anunciou que voltaria ao Brasil em março de 2020 para uma homenagem no Instituto Moreira Salles: mostrar aos brasileiros três filmes de Mikio Naruse, o chamado Douglas Sirk japonês.

A pandemia impossibilitou a homenagem e a programação, mas agora, mais de um ano depois, cabe a Pedro Costa inaugurar – com Vitalina Varela – uma mostra de cinema português, no Centro Cultural Banco do Brasil, e vai até 9 de agosto. Com curadoria de Pedro Henrique Ferreira, a mostra De Portugal para o Mundo será gratuita, com 28 filmes como o citado Vitalina Varela, além de O Estranho Caso de Angélica (de Manoel de Oliveira), Tabu (de Miguel Gomes), A Portuguesa (de Rita Azevedo Gomes) e outros. Vale destacar que, em janeiro deste ano, a Associação de Críticos dos EUA votou em Vitalina Varela como quarto melhor filme estrangeiro de 2020, após Collective, do húngaro Alexander Nanau, Bacurau, dos brasileiros Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e Uma Mulher Alta, do russo Kantemir Balagov.

A ideia da mostra, explica o curador, “é entender os elementos que possibilitaram a emergência de um período tão exitoso no cinema português, num diálogo com a experiência cultural e cinematográfica brasileira hoje”. A abertura, com Vitalina Varela, não poderia ser mais reveladora. Pedro Costa ganhou o respeito da crítica por filmes que não são exatamente palatáveis para o grande público. Mais que filmes, o que ele propõe para os espectadores são experimentos. Realizados com equipes mínimas e orçamentos modestos, quase sempre sem roteiro, o que cada um desses títulos estabelece é a cumplicidade do autor com seus atores.

Vão tateando, repetindo, à exaustão, as cenas. Pedro tem filmado a comunidade de Cabo Verde em Lisboa. Foi assim que encontrou Vitalina em 2013, quando filmava Cavalo Dinheiro. Ele procurava imigrantes num lugar chamado Cova da Moura. Bateu numa porta e viu-se diante de Vitalina. Por muitos anos, ela havia esperado, na antiga colônia, que o marido emigrado a chamasse para juntar-se a ele. O que recebeu foi um chamado muito mais dramático: o marido havia morrido. O cinema de Pedro procura dar voz a pessoas que o cinemão não considera interessantes.

O cinemão busca os destinos extraordinários, os super-heróis. Pedro busca as pequenas vidas, os personagens ordinários, mas de tal maneira que essas pessoas – pobres, marginalizadas -, ao se revelar, permanecem no imaginário do espectador. Ele temia ser invasivo com Vitalina, que sofrera tanto. Ela, que entendera o projeto, o incentivava a ir mais fundo. “Nos festivais, era emocionante vê-la, intuitivamente, estabelecer a diferença entre Vitalina Varela, o filme, e Vitalina, a pessoa.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.