Na semana passada, ao pegar um envelope com açúcar, li com surpresa o que ali estava escrito: “açúcar – orgâni­co-100% – natural-lipídios totais 0% – ecologicamente cor­reto”. Fiquei pensando a respeito da facilidade que algumas empresas encontram para, impunemente, enganar os consu­midores menos avisados. Basta usar algumas palavras “mági­cas” e tudo se torna mais fácil. Uma delas é que o produto é natural, como se tudo o que fosse natural fizesse bem.

É bom lembrar que venenos de plantas foram, ao lon­go da história, usados como forma de matar os inimigos, condenados ou não. E eram naturais. Há alguns anos uma planta (confrei) foi utilizada, como moda, para tratamento de muitas doenças; estudos posteriores mostraram que ela pode, isso sim, determinar sérias doenças hepáticas. Não se quer, com isso, tirar o valor de muitos produtos naturais, mas evitar o risco da generalização. Existem produtos naturais bons, produtos naturais inertes e produtos naturais prejudiciais.

Outra palavra “mágica” é o “laser”. Criou-se a balela de que se alguma coisa é feita com laser ela é muito boa. Inven­taram até que a cirurgia vídeo-laparoscópica, indiscutível avanço na arte de operar, é uma “cirurgia à laser”. São muitos os pacientes que procuram seus médicos para fazer “a cirur­gia da vesícula à laser”.

O termo deve ter sido criado por algum médico muito “espertinho”, que queria impressionar o paciente dizendo que a cirurgia era “à laser”. Se tivesse dito a verdade seria mais honesto e, além disso, não é difícil mostrar que a vídeo-ci­rurgia é muito mais impressionante que o laser. Este último é importante em várias situações, mas em cirurgia digestiva é um recurso a mais para cortes cirúrgicos.

São inúmeras as palavras “mágicas”, como “ecologicamen­te correto”, “modernidade”, “globalização”, etc. As pessoas ficam realmente impressionadas. Na maioria das vezes não passam de rótulos para enganar o consumidor. Um famoso refrigerante, até algum tempo atrás, tinha, na tampinha da garrafa, escrito: “contém trimetilxantina”. As pessoas achavam que isso era muito importante. E não era mentira, a bebida contém mesmo trimetilxantina, mas se colocassem que se tratava da cafeína, que tomamos no café de todos os dias, não ia ficar tão importante.

Mas, essa do “açúcar orgânico” foi demais. Como se outras marcas oferecessem “açucar mineral” e contendo lipídios. En­fim, no reino da enganação comercial parece que vale tudo. E fica por isso mesmo. Quanto ao consumidor, parece que pen­sam que é apenas um detalhe, simples máquina de comprar.