Talvez viva o suficiente para ver o setor de empreendimentos imobiliários defender a ideia de termos calçadas públicas com no mínimo 4 metros de largu­ra para permitir um padrão decente de arborização. Talvez eu ainda esteja por aqui e possa presenciar empresas de distribuição de energia elétrica substituí­rem fiações convencionais por modelos que permitam a plenitude da copa das árvores nas calçadas. Nos derradeiros anos de vida, talvez eu testemunhe pelo jornal que um prefeito comemorou a vinda de recursos financeiros para investir em reforma urbanística com o objetivo de ampliar o espaço para a vegetação.

O tempo da vida caminha a passos largos; o pensamento das elites brasilei­ras a passos de cágado.

Sempre me incomoda bastante a maneira como são podadas grande parte das árvores. Ao longo das calçadas é raro encontrar algum exemplar que não te­nha sua copa descaracterizada ou mesmo, mutilada. De modo geral, as pessoas não observam a paisagem urbana. Leitores, acompanhem a dinâmica botânica das ruas e das praças. Os ipês estão aí para iniciá-los a esse importante exercício.

De uns tempos para cá, boa parte das podas passaram a remover quantida­de maiores de galhos e ramos, resultando em copas pequenas que proporcio­nam pouco sombreamento. O espaço aéreo sobre as imediações de calçadas e canteiros de avenidas tornar-se cada vez mais privativo ao tráfego de automóveis e à passagem do emaranhado de fios.Recentes podas grosseira sem árvores lin­deiras a rodovias esob fiação aérea, parecem expressar não só uma incapacidade técnica, mas uma onda de ódio e ignorância.

Muitos de nós parecem não somente ignorar, mas não suportar a plenitude e a elegância de uma árvore saudável. Já presenciei atearem fogo em árvore de calçada!É estratégico para nossa saúde psíquica não nos acostumarmosaosmaus tratos à vegetação. A poda drástica não é permitida por lei e os responsáveis não devem ficar impunes.

Poda drástica é a remoção de mais de 30% do volume da copa que então passa arealizar com dificuldade o processo de fotossíntese.É a supressão dega­lhos grossos, denominados de pernadas básicas, que formam a estrutura da copa. É a extração de um ou mais galhos que coloca a árvore em desequilíbrio. É o corte de galhos que resulta na desconfiguração da arquitetura original da copa. É o uso de ferramentas de impacto como machados, foices e facões, que impede a cicatrização do corte.Também éa amputação de toda a copa que não permite a recuperação do vegetal. E ainda,a poda de raízes que vulnerabiliza a estabilidade da árvore.

Todo podador deve ter capacidade e habilitação para podar árvores urbanas. Trata-se de serviço que demanda conhecimento técnico obtido por meio de cursos de formação. Dispositivos legais que tratam do assunto cidades brasileiras obrigam o credenciamento de podadores. Neste caminho, junto a outros serviços de manejo da arborização,tais como plantio e controle de pragas, estrutura-se um novo nicho de geração de renda e postos de trabalho.Por outro lado, a impunidade, os valores irrisórios de multas e a não obrigatoriedade de habilitação, estimula-se o caminho ilegal e, consequentemente, desastrosos resultados à paisagem, ao ambiente urbano e à qualidade de vida.

Há três semanas acompanhei uma palestra intitulada “A árvore mutilada: em busca do símbolo perdido”, proferida pelo analista junguiano Roberto Gambini, como parte da programação do Simpósio “Ecos da Psique”, organiza­do pelo Núcleo de Estudos Junguianos “Nise da Silveira”, de Ribeirão Preto. Se­gundo Gambini as árvores são seres dadivosos e nosso ataque a elastem origem no fato da natureza ter perdido sua sacralidade. Segundo ele, o símbolo cataliza energia psíquica e a poda é aquilo que impede; é a mutilação. Aquela brotação efusiva e frágil da árvore logo após uma poda severa é a tentativa de recuperação do trauma sofrido.

Imaginem a diferença e o significado para crianças que crescem vendo em sua cidade árvores belas e frondosas e crianças que crescem observando árvores mutiladas?

No próximo 21 de setembro, Dia da Árvore,talvez esteja vivo para presenciar, sem nenhuma esperança, que um administrador público plantou uma árvore.

(O título deste artigo é de autoria do professor Roberto Gambini, recolhido de sua fala no Auditório da Unaerp, no dia 31/08/2019).

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