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Em 17 de julho comemora-se no Brasil, o Dia do Curupira- Pro­tetor da Floresta e uma dasfiguras do folclore nacional. Dizem que se trata de um garoto com os cabelos vermelhos como o fogo e os pés virados para trás. A alteração anatômica serviria para confundir quem tentava segui-lo. Também preparava armadilhas e utiliza falsos sinais e assovios para enganar os invasores da mata. A única forma de supera-loera fazendo um novelo com cipó e escondendo a ponta.

Uma dos personagens mais famosos de nossa história, o Padre José de Anchieta, escreveu sobre as belezas naturais brasileiras, especial­mente a Mata Atlântica. Em uma carta de 1560 ele não poupou deta­lhes, inclusive demonstrou seu encanto pelo guainumbî (beija flor). O documento que também retrata os costumes e língua dos indígenas, faz uma interessante menção ao Curupira, que açoitava e feria os índios da floresta, quando atacavam seus animais. A lenda nasceu na cultura indígena brasileira e espalhando-se por todo o país sendo uma das primeiras registradas pelos portugueses.

Pobre Anchieta, certamente ficaria desolado ao descobrir que resta apenas 7,3% da cobertura florestal original da Mata Atlântica,que na sua época integrava um maciço florestal de mais de1,3 milhão de km². Sobre o pretexto do desenvolvimento, houve a superexploração iniciada com a extração do pau brasil, depois a agricultura canavieira, e o café, seguidos da implantação da pecuária, exploração de ouro, madeira, carvão vegetal, e produção de papel e celulose entre outros.

Atualmente a Mata Atlântica é um dos nossos grandes biomas, abrangendo quase 15% do território nacional, em 17 estados, onde vive 72% da população brasileira, abrigando três dos maiores centros urbanos do continente sul americano, concentrando 70% do PIB e atividades essenciais para nossa sobrevivência como o abas­tecimento de água, a geração de energia elétrica, o turismo, o lazer, a agricultura e a pesca.

Os dados atualizados dos dois últimos anos apontam que a devas­tação da Mata Atlântica explodiu em São Paulo e no Espírito Santo com taxas de destruição acima dos 400%, em relação ao período de 2018-2019. Isso significa que o plano revelado do ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de “aproveitar” a pandemia para “passar a boiada” de desregulamentações está em pleno andamento. Os dados são incontestáveis, além de negligenciarem as medidas necessárias ao combate do Covid-19, continuam passando a boiada enquanto a outra boiada incentiva, aplaude, curte e compartilha.

Sem a proteção do ser mítico e com a omissão governamental, nossas florestas continuam sofrendo com a exploração desenfreada. A ausência de políticas públicas de conservação ambiental e o desmonte do sistema de fiscalização promovidos pelo atual governoagravam o quadro. A urbanização continua sendo feita de modo não sustentável o que amplia a supressão de biodiversidade prejudicando a fertilidade do solo, reduzindo os mananciais de água, desequilibrando ecossiste­mas e colaborando para o aumento do aquecimento global. Mesmo com os pés virados, o Curupira andava para frente, já o nosso país caminha para trás com nossas autoridadesmetendo os pés pelas mãos.

O Padre José de Anchieta tinha a fama de saber conversar res­peitosamente com todos e exercia a autoridade sem autoritarismo. Certamente o oposto do que se observa em determinadas lideranças políticas e religiosas da atualidade. Sabemos que o Curupira é apenas uma fábula, mas existem pessoas reais que diariamente expõem suas vidas na defesa do meio ambiente.
Segundo dados da ONG Global Witness, o Brasil é o terceiro país que mais mata ambientalistas, perdendo apenas para Colômbia e Filipinas. É tempo valorizaras lideranças indígenas como Ailton Krenak, RaoniMetuktire, Artemisa Xakriabá, Sônia Guajajará, a quilombola Maria do Socorro Silva, os vários artistas engajados, os voluntários anônimos e os reconhecidos como Patrícia Medici e Gabriela Cabral Rezende, ecologistas brasilei­ras premiadas no Reino Unido com o Whitley-2020 conhecido como o Oscar da Ecologia, pelo trabalho de preservação de espécies animais.