O elogio da literatura, de Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo

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Apresentado pelos editores como um diálogo esclarecedor sobre a relação entre sociologia e literatura, esta obra traz um diálogo inteligente entre Zygmunt Bauman e o editor e ensaísta italiano Riccardo Mazzeo. Sobre o que conversam? Sobre a relação entre a literatura, as artes em geral e a socio­logia. Embora muitos estudiosos as vejam como vocações radicalmente diferentes, Bauman e Mazzeo argumentam que elas são ligadas pelo objetivo comum de investigar e revelar a verdade da condição humana. Sem a pretensão de reconstruir as concepções acadêmicas acerca dessa relação, os autores apresentam doze diálogos acerca de suas reflexões sobre uma série de obras de escritores e pensado­res consagrados em suas áreas, como Kafka, José Saramago, Elias Cannetti, Italo Calvino e Jonathan Franzen, na literatura, e sobre Descartes, Kant, Lévi-Strauss e Adorno, nas ciências sociais e humanas, de modo geral.

Assim dialogando, literatura e sociologia, atentas às descobertas uma da outra, e engajadas em diá­logo contínuo, restituem questões existenciais fundamentais à contemporaneidade, já relevantes desde a Antiguidade para a saúde e o equilíbrio subjetivos humanos. Seu intento? Compreender o enreda­mento complexo entre indivíduo e sociedade no real e no imaginário. Um trecho?

“Em numerosas ocasiões no passado, os autores de romances (como os outros artistas visionários) fo­ram os primeiros a mencionar e esmiuçar mudanças de curso ou novas tendências incipientes nos desafios que seus contemporâneos enfrentavam e se esforçavam por tratar; os romancistas conseguiram localizar e captar novas deflexões num estágio em que, para a maioria dos sociólogos, elas permaneciam despercebi­das ou descartadas e negligenciadas em função de sua marginalidade e atribuição manifestamente irrevo­gável ao status de minoria. Hoje nós testemunhamos mais uma ocasião desse tipo. Novamente na história dos tempos modernos os autores de romances se juntam a cineastas e artistas visuais na vanguarda da reflexão, do debate e da consciência públicos. Eles estão desbravando o insight sobre a nova condição de homens e mulheres na nossa sociedade de consumidores cada vez mais desregulamentada, atomizada e privatizada: gente que padece sob a tirania do momento, condenada a levar uma vida apressada e inquie­ta e a aderir ao culto da novidade. Eles exploram e retratam alegrias transitórias e depressões duradouras, medo, indignação… O estudo… desses processos nos serve como chave para deslindar o padrão da relação e da interdependência recíproca entre as duas culturas, artística e científica – bem como estimar o grau ao qual cada um dos dois parceiros de negócio deve seu progresso ao incentivo, esclarecimento, estímulo e ânimo recebido do outro… escritores de romances e escritores de textos sociológicos podem explorar este mundo a partir de perspectivas diferentes, buscando e produzindo tipos diferentes de “dados” – não obstante, seus produtos ostentam indiscutivelmente marcas de origem compartilhada. Eles alimentam um ao outro e dependem um do outro em sua agenda, nas suas descobertas e no conteúdo de suas mensa­gens; eles só revelam a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade da condição humana quando estão na companhia um do outro, quando permanecem atentos às descobertas um do outro e se engajam em diálogo contínuo. Somente juntos eles podem se elevar à altura da tarefa desafiadora de deslindar e desnudar o enredamento complexo entre biografia e história, bem como entre indivíduo e sociedade: essa totalidade que nós moldamos diariamente ao mesmo tempo que somos moldados por ela.”.

Bauman (1925 – 2017) foi o grande pensador da modernidade e perspicaz analista de temas con­temporâneos. Riccardo Mazzeo (1955) é editor e tradutor de obras de filosofia na Itália, dedicado à escrita ensaística desde 2014.