Na primeira metade do século XX, Juan José Morosoli (1899 – 1957), escritor uruguaio, dedicou-se a narrar, em sua obra, a solidão, a morte, os ofícios em extinção, a transição entre o gaúcho e o camponês e as condições mise­ráveis em que viviam os homens do campo na zona rural e interiorana de seu país. Na juven­tude, trabalhando como mensageiro e vende­dor no bazar e na livraria de um tio materno, nestes empreendeu sua formação autodidata, instalando, em 1920, um Café, onde passou a exibir filmes mudos e a organizar um am­biente para encontros literários. De 1923 a 1926, trabalhando em ambientes jornalísticos, iniciou sua colaboração na escrita das peças teatrais, tais como “Poblana”, “La mala semilla” e “El vaso de sombras”. Em 1925, enveredou-se pelo gênero lírico, publicando “Balbuceos”, seguido por “Los Juegos” (1928). Em 1932, chegam os contos da obra “Hombres”. No ano seguinte, colaborando com a “Revista Multicolor de los Sábados”, suplemento literário publicado nas páginas do jornal “Crítica de Buenos Aires”, e, a partir de 1934, com o suplemento dominical do “El Día”, de Montevidéu, teve contos e artigos neles publicados. Experiência, esta, que se repetiu em sua passagem pelo semaná­rio “Marcha” (1940), pela “Revista Nacional “(1944) e pelo “Mundo Uruguai” (1948).

Em 1936, traz ao público “Los albañiles de Los Tapes”, seguido por “Homens e Mulheres” (1944), “Perico” (1947, reunião de contos infantis e uma de suas obras mais populares), “Mucha­chos” (1950, seu único romance) e Vivientes (1953). “A Longa Viagem de Prazer”, único título do autor publicado no Brasil, é uma coletânea de con­tos que revela uma literatura densa e impressionante. Especialistas de sua obra, aproximando-o, sob certos aspectos, à literatura de Guimarães Rosa, ressaltam a valorização que ambos conferem à simplicidade que descorti­na vastidões da alma humana. Em ambos, as mesmas criaturas solitárias, deslocadas num mundo de modernidades que, de forma lenta e cruel, foi apagando a pureza bruta, a cultura e a espiritualidade de um tempo.

Em sua obra, de relatos descritivos, os que falam, com extrema econo­mia de palavras, são personagens que dialogam com animais, ou com eles dividem a solidão que sentem. Nas palavras da crítica, “Em Morosoli, a so­lidão fala”. Definindo sua própria obra, assim fala o autor: “(…) los gauchos no son clásico gauchos. Imagínese. No hay una sola doma de potro. No hay un solo baile. No hay una sola parada de rodeo. Guitarreros menos. En realidad no pasa nada. Son unos trabajadores que sufren el campo aquel. (…) El pueblo de mi libro es igual a muchos. (…) Yo sé que mucha gente cree que estas miserias las inventan los noveleros. Yo escribo lo que veo.”

Entretanto, a despeito da aparente simplicidade da forma, o andamento narrativo, em Morosoli, é sempre surpreendente. Em um trecho, no qual um cicerone leva alguns gaúchos para conhece­rem o mar, nunca dantes visto por estes, o cicerone expressa o quão sobrenatural, em seu mistério e vastidão, ele sente o mar. O que esse personagem quer compartilhar com o leitor? Seu sentimento de assombro, inexplicável e único, diante de um mar que se mostra obra sem autor, “cosia soberba e bárbara”. No entanto, o cicerone verifica que, infelizmente, não são todos que compartilham de seu assombro. Os turistas não conseguem compreender essa sensação do infinito. Ao “Que tal?”, indagado pelo extasiado Rodriguez, cicerone simples e de alma poética, assim é respondido por um dos visitantes, “Pois… é pura água, não? Mais ou menos como a terra, só que é água”, revelando a incapacidade humana de compreender o infinito, embora ele, cicerone Rodríguez, também não consiga encontrar palavras que expressem a grandeza do que vê, ouve e sente diante de si.

Nas palavras da crítica, a viagem, em Morosoli, assume dimensão metafórica e onírica aos “viventes” que não sabem senão as coisas cotidianas de seu cotidiano, onde tudo se resume ao acordar, fazer o mate, cuidar do cavalo e outros. Um trecho? “Umpiérrez despertava, começava o mate, acendia o fogo e preparava um churrasquinho nas brasas. Comia, ia para o forno de tijolos onde trabalhava. Ao meio-dia separava-se do grupo de cortadores que faziam o fogo em comum, acendia seu próprio fogo, tomava mate, encostava uma carne e almoçava.”