Carlos Onetti (1909-1994), destacado autor da narra­tiva em língua espanhola do século XX, foi, ao lado de Mario Benedetti, um dos romancistas mais importantes do Uruguai. Descendente de holandeses, brasileiros e portugueses, desde a adolescência frequentou diferentes redações de jornais e revistas, nelas trabalhando e colaborando com diversos de seus textos, o que foi alternado com seu trabalho em bibliotecas e no teatro. Trajetória, esta, que se prolongou até ser acusado, pela ditadura de seu país, de ser praticante de atividades subversivas, o que o levaria ao exílio, em Madri, dali não retornando até sua morte. Já premiado contista em 1934, com o conto “Avenida de Mayo — Diagonal — Avenida de Mayo” (1933), no concurso do jornal La Prensa, de Buenos Aires, e tendo publicado outro conto, “El obstáculo” (1935), na seção literária do jornal La Nación, Onetti viria a ser diretor de redação da mais importante revista literária moderna do Uruguai, “Marcha”, em 1939, nela seguindo até 1941. No mesmo ano da fundação dessa revis­ta, Onetti se iniciaria no romance com a obra “El pozo” (1939), inspirada na técnica do fluxo de consciência do escritor norte-a­mericano William Faulkner (1897-1962), e pontuada pela crítica como precursora hispânica do que viria a ser a literatura existen­cialista de Jean-Paul (1905-1980) e de Albert Camus (1913-1960), na França, distanciando-se de todo regionalismo, realismo e costumbrismo da cor local.

Um trecho? “Parei de escrever para acender a luz e refrescar os olhos que ardiam. Deve ser o calor. Mas agora quero fazer algo dife­rente. Algo melhor que a história das coisas que me aconteceram. Eu gostaria de escrever a história de uma alma, só dela, sem os aconte­cimentos em que ela teve que se misturar, querendo ou não. Ou os sonhos. Desde algum pesadelo, o mais longínquo que eu lembre, até as aventuras na cabana de troncos. Quando estava na fazenda, sonhava muitas noites que um cavalo branco pulava em cima da cama. Lembro que me diziam que a culpa era do Zé Pedro porque ele me fazia rir antes de eu me deitar, soprando a lâmpada elétrica para apagá-la. O curioso é que alguém dizendo de mim que sou ‘um sonhador’ me provocaria bocejos. É absurdo. Vivi como qualquer um ou mais. Se hoje quero falar dos sonhos, não é porque eu não tenha outra coisa pra contar. É porque deu vontade, simplesmente. E se escolho o sonho da cabana de troncos, não é porque tenha alguma razão especial. Há outras aventuras mais completas, mais interessantes, mais bem orga­nizadas. Mas eu fico com a cabana porque ela me obrigará a contar um prólogo, algo que aconteceu no mundo dos fatos reais faz uns quantos anos. A gente poderia combinar de ir contando um ‘acontecimen­to’ e um sonho. Todos ficaríamos felizes”.

Com “El pozo”, Onetti inseriu, irreversivelmente, a narrativa hispano-americana na moderni­dade, seja em seus temas e estrutura, seja em seus recursos narrativos. Em “El pozo”, quase tudo é clausura e confinamento, mas uma reclusão sem traços de amargura autorreferencial ou pseudo­-existencialista. A ficcionalização de um mundo de fatos reais, contados ao sabor das alucinações. Um mundo em que as prostitutas, os cornos, os cafetões, os drogados, os bêbados e os que se per­deram, de modo geral, ganham seu espaço de confissão. Enclausurados ou mergulhados em uma linguagem pesada, que reclama ser purgada. Em 1940, “Tempo de abraçar” representou o Uruguai em um concurso de Nova York. Um ano depois chegava ao públi­co “Terra de ninguém” e “Um sonho realizado”. Em 1943, Onetti publicava “Para esta noite”. No ano seguinte, aparecia “Bienvenido, Bob”, um dos contos mais ilustres de Onetti. Até que, em 1950, chegava sua obra-prima “A vida breve”.
“A vida breve” traz a história de um personagem que, contratado para escrever um roteiro cinematográfico, encontra-se preso em casa. Condenado a ouvir os diálogos que imagina, e os monólogos que fala consigo mesmo, este personagem sofre ao ouvir as vio­lências às quais sua vizinha, prostituta, é submetida. Inventando, então, dois personagens que, em sua ficção, conseguem intervir na vida dessa vizinha, o leitor se depara com a mistura da ficção com dois tipos de memórias e alucinações: as do protagonista e as da prostituta. Considerado seu melhor livro, nele, segundo a crítica, as personagens estão sempre no limbo, entre o mundo que habitam e aquele que preferem imaginar para si, numa Santa Maria habitada por excêntricos cansados, náufragos e sonhadores.

Após esta obra, Onetti publicou uma sequência de relatos so­bre sua imaginária cidade de Santa Maria, reunidos em “El astillero” (1961) e “Juntacadáveres” (1967), além de “Adeus” (1954) e “Por um túmulo sem nome” (1959). Na sequência, sucessivas coleções de contos “Um sonho tornado realidade” (1951), “A cara da desgraça” (1960), “O in­ferno tão temido” (1962) e “Tão triste quanto ela” (1963). Este escritor, que se dedicou a explo­rar a fascinante pergunta “O que acontece com a alma e a linguagem dos seres humanos em situação de confinamento completo?” merece, nos tempos pandêmicos que estamos vivendo, uma leitura atenta e dedicada. A tarefa imposta ao mundo atual, de aprender a viver sozinho, por certo encontrará caminhos e respostas interessantes, e complexos, em Juan Carlos Onetti. Um escritor que nos revela que todo ser, enclausurado entre quatro paredes ou não, sofre do mesmo modo, em grau e intensidade.