“Ôh terra que tem minhoca eu gostá de cavucar”

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Há um universo de possibilidades para experimentar a natureza e aguçar nossos canais sensitivos. Certa vez caminhando por uma trilha em um cer­rado sul mato-grossense conheci marmelo. Frutos maduros, pretos, macios e adocicados. Além de me fartar da carne da fruta, brinquei com as sementes na boca. Eram vários pés de marmelo, sutilmente localizados entre grandes árvores, com muitos frutos maduros. Foi uma descoberta deliciosa!

Imagine um esporte radical em que um avião ou um helicóptero lhe transporte para cima das nuvens e então você é alçado à uma grande rede que pendurada à aeronave lhe possibilita passar por dentro das nuvens. Imagine a sensação no seu corpo de estar dentro de uma nuvem!

Água fria e revigorante de cachoeiras volumosas. Grandes poços onde o desafio é mergulhar e abrir os olhos em um ambiente de pouca luminosidade. Nas chapadas do Brasil Central há uma infinidade des­ses santuários. “O véu de noiva de água virgem/ Me elevou, envolveu./ A sua ducha me deu vertigem/ Arrepio, rodopio, em mim/ Seu jorro não tem mais fim.” (Na Chapada – letra de Carlos Rennó e música de Tetê Espíndola). Certa vez na Trilha do Imperador no Costão da Jureia, Litoral Sul paulista, ficamos horas sentindo a queda forte da água nos ombros e nas costas para driblar a fome. Fazíamos um traba­lho de mapeamento de trilhas para o Instituto Florestal e a reserva de alimentos havia terminado no alojamento da Estação Ecológica.

Lagartear: tomar sol em pedra de granito e com os olhos fecha­dos ouvir toda a sorte de cantos ao redor. O canto dos pássaros e o som do vento quando trazidos para dentro da mente exercem a fun­ção de limpeza e concentração. Caso você tenha insônia no come­cinho da manhã, coloque toda a sua atenção no canto dos pardais, andorinhas e sabiás. Conecte-se simplesmente com essa vida que bate à sua janela e Hipnos lhe acolherá nos braços novamente.

AAAh! Um piquenique à sombra de uma majestosa araucária, o pinheiro-do-Paraná ou curi (seu nome indígena). Quem sabe uma farofa de pinhão não esteja ali pertinho, sob a toalha colorida disposta no chão?

Flores da caatinga, do cerrado, dos jardins de nossas avós e das árvores nas calçadas. Após dois dias de chuva chegávamos ao Vale do Catimbau em Buíque, no interior pernambucano. Fomos para ver pinturas rupestres, mas a caatinga florida invadiu nosso olhar. Tínhamos o branco, o rosa, o amarelo e o laranja compostos ao azul do céu. Fotografávamos a paisagem e as flores como se quiséssemos levá-las para casa. E o que dizer das grandes dálias vermelhas, bor­dôs e violetas no jardim de Dona Ema em Clementina?

No filme “O triste fim de Policarpo Quaresma”, dirigido por Paulo Thiago, baseado na obra homônima de Lima Barreto, há uma cena em que o ator Paulo José, deitado de bruços em seu quintal, sob uma forte chuva, parece abraçar e fecundar a terra. Há no ar um cheiro surpre­endente de mato e vida após a chuva. Florestas localizadas onde o ar é muito limpo lançam compostos aromáticos na atmosfera para que o vapor d’água seja nucleado em gotas e assim chova copiosamente.

“Taratá, crioula de taratá/ Ô de taratá, crioula de taratá/ Ô terra que tem minhoca eu gostá de cavucar/ De cavucar, crioula de cavucar/ Ô de cavucar, crioula de cavucar/ Ô de cavucar mas para depois parantar”. Este batuque recolhido e adaptado por Clementina de Jesus nos remete à uma experiência sensorial incrível! São nossas mãos e pés “sujos” de terra, além da ludicidade no encontro com minhocas e no plantio de sementes e jovens mudas.

Praia, prazer: dunas, coqueiros e ondas. Um litoral de vento e liber­dade à disposição do corpo. Os lençóis de areia tinham matizes alaranja­dos enquanto o sol se punha naquele fim de tarde no Delta do Parnaíba.

A farinha seca se aproximava de nós na praça bem arborizada. Disse­-lhe: toque com as palmas o tronco desta árvore. Ao fazê-lo, ele surpre­endeu-se com o pó amarelado e macio que impregnou suas mãos. Em seguida abriu um enorme sorriso. No conto “A última canafístula”, do escritor gaúcho Charles Kiefer, o neto após abraçar a enorme árvore com a soma dos braços de seu avô, toma-lhe a mão para ir para casa e sente que a textura áspera é semelhante à da casca da canafístula.

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