Desde 300 anos antes de Cristo, a caça ao touro selvagem mobiliza os espanhóis. Símbolo da fertilidade, enfrentar a fera traria a sua virilidade transposta para o desafiante. Velha prática dizia que o touro precisava ser morto pelo noivo , a fim de garantir um casamento feliz e duradouro. Esta prática continuou até o come­ço da Idade Média, quando os espanhóis a ampliaram para come­morar não só casamentos, mas também nascimentos e batizados.

Arraigada na cultura espanhola, a tourada se expandiria como instituição, com sua regras, floreios e grandes arenas, cons­tituindo-se num espetáculo bárbaro, hoje limitado por leis de proteção aos animais. Mas, continua a ser manifestação popular, haja vista a Corrida de San Firmin, quando vários touros bravios perseguem os populares que correm pelas ruas de Pamplona.

Localizado na Península Ibérica, Portugal adotou a prática das touradas, porém sempre contestadas, várias vezes proibidas. Em 1821, uma lei proibiu a morte do touro, surgindo então a versão atual do torneio. Apesar de não se sacrificar o touro, o espetáculo ainda inflige a ele lesões e perda de sangue, razão porque seu público está diminuindo dia a dia.

A tourada portuguesa se constitui de duas partes: uma corri­da, onde o cavaleiro conduz sua montaria em galope,com passos ensaiados e sempre rente ao touro que o persegue, cavalheiro que vai lançando as bandeirilhas, anzóis decorados no corpo do touro, principalmente em regiões de grande incidência de nervos. Isto enfurece a fera, que se lança na busca de atingir o ca­valo. Só a maestria do cavaleiro evita este choque. Entram então em ação os forcados.

O origem dos forcados perde-se na história portuguesa, teriam surgido desordenadamente como pegadores de touro à unha.No início eram profissionais em busca de um dinheiro extra. A partir do século XIX, foram eliminados das touradas e surgiram os forcados amadores, que prevalecem até hoje. Médi­cos, advogados, engenheiros, funcionários públicos se dedicam à arte de pegar e derrubar o touro.

O touro a ser dominado tem as pontas dos chifres cortadas, mas pesa muito, o que dificulta o trabalho.

Cada grupo de forcados tem oito integrantes. Numa fila simétrica, vão todos para o centro da arena, destacando-se dela o forcado de cara.Este começa a incitar o touro para que o ataque e no momento em que a fera começa a se movimentar, o forcado também se lança à frente com o objetivo de agarrar os chifres com os braços. Imediatamente os demais pulam em cima do touro, com o objetivo de imobilizá-lo. Um último forcado, o rabejador, agarra-se ao rabo do bicho e quando o grupo solta o touro imobilizado, este continua agarrado, girando em rodopios, pois o touro quer atingi-lo.

A peleja é um exercício de masculinidade e não é fácil rece­ber o impacto de um touro correndo, nem dominar a fera que pesa mais de 500 quilos. E também ocorre que o forcado de cara não consiga segurar o touro. Nesta última visita minha a Portugal, o primeiro forcado de cara teve um dos braços deslocado, ao ser lançado à distância. E o outro a se apresentar precisou de quatro tentativas para que o bicho fosse então dominado pela equipe.

Os homens sempre tiveram com o bichos relação de afeição e medo. Quando conseguiram dominar os primeiros lobos, transformando-os nos cães que hoje guardamnossas casa, descobriram que os animais podiam ajudar nas lides agrícolas e domésticas, bem como serviriam de companhia. Mas, ainda persiste a luta ancestral que os humanos tiveram para conquistar para nós o planeta. A tourada é um resquício ainda que bárbaro, desta luta.

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