Sars-CoV-2 pode infectar e matar células de defesa

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© REUTERS/Dado Ruvic/Direitos Reservados

Karina Toledo
Agência Fapesp

Experimentos conduzidos na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto in­dicam que o novo coronaví­rus é capaz de infectar e levar à morte diferentes tipos de linfócitos – células-chave na defesa do organismo contra patógenos. Não se sabe ain­da se há queda na imunida­de decorrente desse ataque e qual seria a sua duração, mas os pesquisadores não descar­tam a possibilidade de a in­fecção deixar algum tipo de sequela no sistema de defesa.

Resultados da pesquisa, apoiada pela Fapesp, foram divulgados no repositório bioRxiv. O artigo está em processo de revisão por pares. “Logo no início da pandemia percebeu-se que a linfopenia [queda acentuada na conta­gem de linfócitos do sangue] era uma alteração hematológi­ca frequente em pacientes com covid-19 hospitalizados e que esse quadro estava associado a um prognóstico ruim, ou seja, maior risco de intubação e morte. Mas até agora não es­tava claro qual era a causa do problema”, conta o virologista Eurico Arruda, professor da Faculdade de Medicina de Ri­beirão Preto (FMRP-USP) e coordenador da investigação.

Durante uma infecção vi­ral, explica o cientista, é espe­rado que parte das células de defesa saia da circulação e mi­gre para o tecido afetado para ajudar no combate aos in­vasores. Contudo, autópsias de pacientes que morreram em decorrência da síndro­me respiratória aguda gra­ve associada ao Sars-CoV-2 mostraram que a quantidade de linfócitos presente nos te­cidos infectados não era su­ficiente para explicar o qua­dro de linfopenia detectado quando essas pessoas ainda estavam internadas.

“Certamente deveria ha­ver outro mecanismo envol­vido. Decidimos então inves­tigar se as células de defesa de pacientes com covid-19 tinham o vírus em seu interior. Alguns grupos tinham descri­to que a carga viral era pratica­mente indetectável no sangue, mas eles tinham olhado para o fluido como um todo. Nós iso­lamos apenas as células mono­nucleares [grupo que inclui monócitos e linfócitos] e fize­mos uma espécie de concen­trado de linfócitos”, explica o pesquisador.

Antes de analisar os leu­cócitos de pacientes, porém, os pesquisadores fizeram diversos experimentos com amostras sanguíneas de cin­co voluntários saudáveis para testar a hipótese de que o coronavírus seria capaz de infectar e matar linfócitos. O concentrado de células mo­nonucleares obtido a partir do sangue de doadores sadios foi incubado com o vírus du­rante dois dias. Com um an­ticorpo capaz de reconhecer antígenos do vírus no interior das células, os pesquisadores comprovaram que o processo de infecção tinha ocorrido.

As análises mostraram que os monócitos foram as células mononucleares mais suscetíveis ao Sars-CoV-2 (44% estavam infectadas), seguidos pelos linfócitos T CD4 (responsáveis por coor­denar a defesa imunológica por meio da liberação de mo­léculas sinalizadoras conhe­cidas como citocinas; 14%), linfócitos T CD8 (capazes de reconhecer e matar células infectadas pelo vírus; 13%) e linfócitos B (os produtores de anticorpos; 7%).

A carga viral no concen­trado celular foi medida por RT-PCR – o mesmo teste molecular feito para diagnos­ticar a covid-19 em pacientes – após seis, 12, 24 e 48 horas. Observou-se um aumento consistente da quantidade de vírus, que chegou a ser 100 vezes maior na última análi­se. Tal resultado indicava que o microrganismo não apenas tinha entrado nas células mo­nonucleares de voluntários como também estava se re­plicando em seu interior.

“Quando tratamos a cul­tura com um composto ca­paz de inibir a protease usa­da pelo Sars-CoV-2 para se replicar, observamos uma redução importante da carga viral. Esse é mais um indício de que o vírus estava se re­plicando nessas células, mas ainda não sabemos em quais delas exatamente”, afirma Ar­ruda. Em outro experimento, o grupo tentou bloquear a infecção com um inibidor de ACE2 – a proteína usada pelo microrganismo para entrar na célula humana, normal­mente expressa em baixas quantidades nas células mo­nonucleares do sangue.

“O tratamento com inibi­dor de ACE2 reduziu a carga viral na cultura, mas não a aboliu totalmente, o que su­gere a existência de um meca­nismo alternativo de infecção em células linfoides. Isso não é algo raro entre os vírus, que podem usar variadas molé­culas para se ligar a diferentes tipos de células, a exemplo de HIV e adenovírus.

Ao investigar mais deta­lhadamente os linfócitos T CD4 e T CD8 infectados, os cientistas notaram que a en­trada do vírus desencadeou um mecanismo de morte celular programada conheci­do como apoptose. Segundo Arruda, essa é uma possível explicação para a linfopenia observada em pacientes com covid-19.

Pesquisa envolve infecção natural
A etapa seguinte da pesquisa foi feita com células mono­nucleares de 22 pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com quadros moderados ou severos de covid-19. O material foi coletado entre os dias 7 de abril e 18 de junho no Hospital das Clínicas da FMRP-USP.

As análises mostraram que nem todos os indivíduos tinham em seus leucócitos uma marca­ção expressiva para a presença do vírus e que a taxa de células positivas variava bastante entre eles – de 0,16% a 33,9%.

“Os pacientes tinham perfis clínicos variados e estavam em diferentes estágios da doença, o que dificultou a comparação. Mas o fato é que consegui­mos identificar a presença do vírus no interior das células mononucleares de portadores da covid-19”, diz o virologista Eurico Arruda, coordenador da investigação.

O grupo selecionou amostras de 15 indivíduos para anali­sar as diferenças individuais nas taxas de células positivas para Sars-CoV-2. Para isso, os pacientes foram estratificados com base no tempo de coleta de amostra após o início dos sintomas.

Essa análise evidenciou que as taxas de linfócitos B in­fectados foram as mais altas em todos os indivíduos. Isso poderia ajudar a entender por que algumas pessoas quase não apresentam anticorpos após a infecção – hipótese atualmente em investigação.

Já no caso dos monócitos, quanto mais avançada estava a doença, maiores eram as taxas de células positivas – resultado semelhante ao observado para os linfócitos T CD4. Por meio de técnicas como imunofluores­cência e microscopia confocal, os cientistas confirmaram a presença de uma fita dupla de RNA viral no interior das células infectadas – um indicativo de que o patógeno, cujo genoma é composto por uma fita simples de RNA, estava em processo de replicação.

“O conjunto de dados sugere, portanto, que o novo coronavírus pode infectar e se replicar nos linfócitos. Isso é um potencial complicador, pois pode deixar o paciente suscetível a infecções oportunistas e os hospitais estão repletos de bactérias resistentes. Os médicos precisam estar aten­tos a esse fato. Além disso, ainda não sabemos que tipo de efeito tardio isso pode ter no sistema imune, só descobriremos median­te investigações a serem feitas no seguimento dos pacientes convalescentes”, diz Arruda.

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