Jornal Tribuna Ribeirão

Setembro Amarelo – mês para brilhar vidas

Para viver, há necessidade de ser visto e acolhido pelo outro

Cachorro que ladra, não morde. O uso do provérbio para indicar um possível suicida é erro abismal. Quem fala em se matar, não está ‘espetacularizando’ o sentimento e merece ser ouvido, precisa de atenção. Não são palavras ao vento, não são dizeres a serem ignorados. Há um pedido talvez de ajuda, talvez de comunicado, mas certamente uma dor desmedida na alma.

Em O Espelho, Machado de Assis revela o conteúdo do conto já no subtítulo, “Esboço de uma nova teoria da alma humana”. É a formulação da existência de duas almas ao homem: uma relativa ao seu íntimo, a que “olha de dentro para fora”; outra ao ser transcendental, determinado em espaço, tempo e na relação com os outros. Na história, a suspensão da alma externa do personagem leva-o ao vazio do nada. Sozinho, separado do outro que lhe concedia prestígio por se tornar alferes, ele só volta a ter a imagem refletida no espelho ao vestir a farda militar, reconquistan­do assim a essência perdida.

A conclusão da narrativa é de inviabilização da vida se as duas almas não estiverem frente a frente. E se fatores externos, na fábula machadiana, podem desfazer a alma transcendental, teríamos então, todos nós, como socie­dade, relação com o desencadeamento da angústia de um futuro suicida, a quem foi negada a transcendência por via da relação com outros?

Setembro é o mês da campanha nacional dedicada à prevenção do suicídio. Mundialmente, no dia 10 de setem­bro declara-se a preocupação com o ato de tirar a própria vida. Um dia, um mês, uma travessia que pode ser rom­pida a qualquer momento. O alerta a essa interrupção é demonstrado, muitas vezes, por sinais de tristeza, de desencontro consigo mesmo, com mudanças de humor, de hábitos.

Que os sinais da ruína de uma das duas almas, narradas pelo “Bruxo do Cosme Velho”, consigam chegar aos olhos, olfato, tato de quem esteja perto, para que seja possível a tentativa por especialistas – psicólogos e psiquiatras – de deter o suicídio. Afinal, com o cessar de uma jornada, muitas outras vidas que amavam o protagonista daquele trajeto, perdem também um pedaço de suas almas.

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