Em 11 de dezembro de 1964 estreia o espetáculo “Show Opinião”, escrito de forma coletiva por vários autores e assina­do por Armando Costa, Paulo Pontes e Vianinha, e dirigido por Augusto Boal. A apresentação marcaria a história cultural brasileira e dos artistas que procuravam alguma forma de se opor ao golpe militar.

Após o golpe militar, a União Nacional dos Estudantes (UNE) havia sido colocada na ilegalidade, e sua sede fora incendiada pelos militares no mesmo dia em que ocorreu o golpe. Os artistas que conceberam o “Show Opinião” eram aqueles que haviam construído o Centro Popular de Cultura (CPC), ligado a UNE, e que desde 1962 haviam dedicado grandes esforços para criar um movimento de cultura popular no Brasil ligado à intensa mobili­zação política que ocorria naquele momento.

O “Show Opinião” foi encarado como a primeira resposta do teatro ao golpe militar. Na época em que foi feito, no entanto, as precárias análises de conjuntura do PCB influenciavam o grupo a tal ponto que tratavam o golpe como se fosse algo absolutamente passageiro, e não uma derrota histórica dos explorados.

Por isso, como aponta Iná Camargo Costa, “salvo por uma ou outra referência incidental, como no rápido esquete em que, a propósito do consumo de maconha entre sambistas e marginais, comenta-se que ‘o vermelho está fora de moda’, ou pelo achado de uma alegoria como o ‘Carcará’, que foi imedia­tamente associado ao general de plantão, nada mais permite supor que a peça tenha sido escrita depois da maior hecatombe política da história do país.”
No espetáculo há três protagonistas, cuja biografia serve de base para o enredo da peça/musical. A música é o que une os protagonistas, e é tomada como uma forma de luta e resistên­cia. São três personagens com histórias distintas, com o fio condutor da música como luta social. João do Vale representa o migrante nordestino, que chega ao Rio de Janeiro como a capital da indústria cultural, para tentar fazer sua música.

Zé Keti é o trabalhador carioca, dos morros do Rio; Nara Leão é a garota de classe média que decide aderir à música e à luta popular, como de fato fez, tendo sido muito criticada pelo seu abandono do posto de expoente da bossa-nova, que ela rejeitou como um período de alienação. Posteriormente, Maria Bethânia substituiu Nara Leão no “Opinião” por motivos de saúde.

O “Show Opinião” é fruto direto das experiências do teatro de rua do CPC. É uma experiência de AgitProp (Agitação e Propaganda, uma forma teatral que surgiu na Rússia pós-revo­lucionária e está vinculada a um teatro vinculado aos movi­mentos de luta dos trabalhadores e explorados). Sua forma não é a de um teatro, mas a de uma narrativa feita pelos atores-cantores, que utilizam sua música para contar uma história da música no país e a sua relação com a indústria cultural.

Cada um deles narra suas dificuldades para poder exercer a sua arte: o preconceito de classe, o machismo, o estereótipo do músico, a imposição do mercado cultural americano. O CPC teve de fazer um verdadeiro trabalho arqueológico de resgate de gran­des músicos que foram renegados pelo mercado; um dos artistas redescobertos pelo CPC foi ninguém menos que Cartola.

O “Show Opinião” foi um grande sucesso, reunindo nas pri­meiras semanas mais de 25 mil espectadores no Rio, e depois mais de 100 mil em São Paulo e Porto Alegre, mostrando que, com o peso de um golpe militar nas costas, e com a traição da direção que poderia ter lhe feito resistência – o PCB – ainda as­sim os artistas procuraram caminhos para tentar expressar sua voz, cada vez mais abafada pela dura repressão que se abateria não apenas sobre as organizações dos trabalhadores e campo­neses, mas também sobre a arte e a cultura independentes e aliadas a estes.

Salve o “Show Opinião”, salve a resistência e a música brasileira!

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