Aqui em Ribeirão Preto, até hoje rolam disputadas partidas de futebol de quadra, e durante a semana toda. Acho muito prazerosa essa prática esportiva, principalmente com o pós-pelada: resenha regada a churrasco e cerveja trincando. É quando se discute jogadas geniais, gols perdidos e até o gol que Pelé não conseguiu fazer na Copa de 1970, no México.

Meu irmão Rubão era craque. Vez em quando me convidava para o churrasco, sua galera era “Turma da sexta”. Participavam boleiros que sabiam tudo da arte e também ex-profissionais. Ali eles mostravam que, apesar do tempo, continuavam chamando a pelota de meu amor, provando que quem sabe, sabe, e que talento e habili­dade Deus dá para poucos. Meu violão fazia a alegria dos amigos e até nos esquecíamos da hora.

E por falar em resenha, Sócrates contou uma numa roda de prosa que o hoje senador Jorge Kajuru conta por onde passa. Kajuru tinha uma rádio em Goiânia que era campeã de audiência, depois a vendeu para o José Luiz Datena, que colocou um dos filhos para administrá-la. Kajuru armou por lá uma pelada e convidou uma pá de amigos para agitar o evento, entre eles o Sócrates.

A pelada rolou legal, foi no gramado de um clube da cidade, Magrão e seu calcanhar deram um toque todo especial na partida. Muita gente prestigiou, depois foram para o salão onde, e lógico, tinha um bar (rsrs) e os craques foram encharcar o verbo. O local estava lotado, a mesa dos boleiros era redonda e grande, a resenha estava super animada.

Numa mesa próxima, uma turma conversava animadamente quando um deles desgarrou-se dos demais e se dirigiu à mesa do Sócrates, interrompendo o assunto. Estava em pé falando alto à beça, a turma parou o papo para ouvir o intruso que foi logo dizendo: “Sócrates, você sim era craque, os outros daquela seleção não chega­vam a seus pés”.

E continuava aquele papo de quem tomou um monte. “Doutor, aquele pênalti que você perdeu contra a França na Copa de 1986, não foi você quem perdeu, e sim o goleiro que estava bem colocado”. A turma da mesa já dava sinais de que o cara cheio de sambarilove estava alugando por demais a orelha do Magrão, que agradeceu meio constrangido pra ver se o sujeito se mandava.

De repente, o sujeito, na maior cara de pau, gritou para o garçom trazer uma cadeira que iria sentar à mesa. Sócrates, incomodado, disse: “Escute aqui, parceiro, na nossa mesa você não vai sentar, não. Nós estamos discutindo um assunto e você nos interrompeu, te dei toda atenção, até te agradeci, mas você não vai sentar na nossa mesa, não”.

O sujeito arregalou os olhos e começou a vociferar: “O quê?! Você não vai me deixar sentar na sua mesa?” O Doutor confirmou que não. O cara se transformou, saiu rumo à porta dizendo: “Você nunca jogou nada, você foi um perna de pau, aquele pênalti que você perdeu na Copa foi porque você era grosso”. E lá da porta ainda balançava o braço. Ele se mandou, a turma da mesa se matou de rir.

Sócrates, quando chegou no Flamengo, aproveitou para conhecer a noite carioca. Sempre ia onde tinha música ao vivo. Numa dessas conheceu um grupo de samba de primeira, combinou com eles um churrasco com samba em sua casa, num condomínio. Os sambistas adoraram e a festa foi confirmada. Magrão, muito vivo, convidou os vizinhos pra não haver reclamações.

Aquele domingão de sol, chope, o churrasqueiro caprichava no assado, mas faltava o samba. Sobre essa parte Sócrates contava e ria muito. Disse que tocou o interfone e o porteiro falou: “Doutor, tem uma Brasília na portaria com uns ‘oito negão’ dentro, um surdo amarrado no bagageiro e estão dizendo que vão na casa do senhor fazer um samba”.

Magrão, de imediato, disse: “São meus convidados, pode deixar entrar”. Para os sambistas foi só alegria, samba na casa do Sócrates… Sei muito bem como era (rsrs). Vararam a noite e invadiram a madrugada.

Sexta conto mais.