Mais causos de minha convivência com Sócrates. Este, por exemplo, já contei aqui, mas sempre fica pra trás alguns lances cheios de pitadas de humor. Lembrei-me de alguns lances do casamento de um sobrinho do ditador da Líbia, o falecido Kadafi. Numa época em que em nosso bate-papo não se falava em política, estávamos eu, Datena e Sócrates na churrascaria Coxilha dos Pampas, já tínhamos derrotado alguns copos de chope quando o celular do Magrão tocou.

Ele falava misturando um espanhol com italiano. Datena me per­guntou: “Buenão, o que que tá pegando?” “Não sei, Datenão”, respondi. Depois de algum tempo, Magrão, demonstrando um certo desconfor­to, desligou. Datena logo o enquadrou e ele disse: “É o seguinte, um sobrinho do Kadafi, ditador da Líbia, vai casar e ele ordenou que seus assessores me contratassem para que ser testemunha do casório. Man­dou dizer que adorou a seleção de 82 e era meu fã” , disse o Doutor.

E continuou: “Pedi uma grana preta para que eles desistissem, mes­mo assim aceitaram e ainda prometeram uma série de coisas, então re­solvi encarar essa parada”. O contrato era de sete dias, tempo de duração de um casamento por lá. “Havia dito a eles que só sairia do Brasil com o dinheiro na minha conta, e como ainda não o fizeram, nada feito”, emendou Sócrates. O assessor arrepiou e prometeu que em instantes a grana estaria na conta dele e, de fato, uma hora depois, noutra ligação, passaram a régua. Disse o Doutor que na volta contaria essa aventura.

Na época, a mulher do Sócrates quis ir junto, ele tentou convencê-la a mudar de ideia dizendo que naquele país a mulher nada significa, mas estava irredutível. Então ele disse: “Está bem, você vai, depois não diga que não a alertei.”

Uns quinze dias depois ele ligou. Fomos colocar nosso papo em dia e eu curioso pra saber da viagem, Magrão tava super alegre e logo mandou ver: “Buenão, aterrissamos na Tunísia, na Líbia as empresas aéreas não pousam. Fomos de carro até a capital, um assessor do Kadafi disse que ele queria me ver assim que chegasse em seu palácio. Fiquei sabendo que o primeiro-ministro do Sudão aguardava fazia uma sema­na pra falar com o homem e eu já cheguei batendo pênalti. Levaram-me até ele, minha mulher não podia ir, ficou fechada no quarto. Kadafi mostrou-me que tinha todos os jogos da nossa seleção de 82, colocou alguns lances, comentou jogadas, demonstrou estar feliz porque aceitei estar em seu país”.

Cenas de um casamento. “Como rezava o contrato, fui participar como testemunha da compra da noiva, assim é o costume deles, só homens por parte da noiva e do noivo, nenhuma mulher no pedaço e a minha ficou no quarto do hotel. A negociação foi acirrada, muita gritaria, por fim bateram o martelo”, contava o Magrão.

“Todos os dias tinha uma festa, onde iam me levavam e não sabiam o que fazer para me agradar, ganhei muitas coisas, saí daqui com apenas uma pequena mala e voltei com várias malas enormes cheias de presen­tes. As mulheres só puderam ir na festa que aconteceu no quinto dia de casamento. Um salão enorme, a comida foi servida em tigelas colocadas no chão e todos comiam na mesma tigela com uma colher de pau”.

Sócrates disse que a mulher dele fez cara de nojo. “Eu logo falei: “lembre-se que te avisei, agora ouça o que vou te falar, se estamos aqui é porque nos consideram da família, você tem que comer. E ela, muito a contragosto, mandou ver”.

O Magrão finalizou: “Buenão, de volta à Tunisia, o voo ia demorar, fomos dar um rolê pela capital, e onde passava era um acontecimento. Fiquei de cara, parceiro, não esperava essa popularidade naquela região, só sei que ganhei mais presentes dos comerciantes. Houve outros lances interessantes que depois te conto, mas de tudo tem uma coisa não me sai da cabeça, parceiro”. Perguntei o que era. Magrão, rindo, disse: “Nun­ca vi uma noiva custar tão barato”.

Sexta conto mais.