Terapia anticâncer já tem ‘fila de espera’

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ALFREDO RISK

Desenganado pelos médi­cos e sem outras alternativas de tratamento contra o câncer, o aposentado Vamberto Luiz de Castro, de 62 anos, funcio­nário público aposentado e residente em Belo Horizonte (MG), foi submetido a uma terapia celular experimental em setembro, no Centro de Terapia Celular (CTC) do He­mocentro, ligado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – vinculada à Universidade de São Paulo (USP).

Em estado grave e sem res­posta a tratamentos conven­cionais para a doença, foi o primeiro brasileiro a ser tratado com uma terapia celular inédita na América Latina. Em menos de 20 dias após o início do tra­tamento, o paciente apresentou remissão total do câncer, com exames mostrando que as célu­las canceríginas desapareceram. Os exames comprovavam a re­missão do tumor.

Agora, mais três pacientes com linfoma avançado do tipo não-Hodgkin são preparados no Centro de Terapia Celular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, administra­do pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), para serem submetidos ao tratamento. A terapia, personalizada, é feita a partir das células de defesa do próprio paciente.

O método já é usado com sucesso nos Estados Unidos e na Europa e está revolucionan­do o tratamento deste tipo de câncer no exterior. A técnica usada em Castro e nos novos três pacientes, no entanto, foi totalmente desenvolvida no Brasil e pode, no futuro, ser oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Há ainda, porém, um longo ca­minho a ser percorrido até ser aprovada oficialmente.

Um dos responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia, o hematologista Dimas Tadeu Covas, coordenador do CTC e e do Instituto Nacional de Célu­las Tronco e Terapia Celular , se mostra otimista em relação aos resultados do tratamento. Mas está apreensivo com a possível demora na aprovação do trata­mento no Brasil.

“Quando abrimos a porta da esperança, não tem como fe­char”, diz. “Mas precisamos ace­lerar os processos. É estratégico para o País olhar para este cená­rio e tomar uma decisão: vamos transformar em produto, come­çar um estudo clínico, combinar com as agências reguladoras. Já temos uma pequena fila para o uso compassivo da terapia, em caráter experimental. Três pes­soas já estão em preparação, na fase da coleta e modificação das células. Meu objetivo, que talvez seja um pouco otimista, é testar a terapia em dez pacientes nos próximos seis meses”, diz Covas.

Segundo ele, ainda há al­guns obstáculos para o desen­volvimento da terapia. “É uma terapia experimental, não te­mos um produto aprovado, e nossa capacidade de ampliar a produção é muito peque­na. Hoje, conseguimos fazer um caso a cada 30 ou 40 dias. Para ampliar, precisaríamos de apoio, investimento. Estamos tentando parcerias com outros laboratórios que tenham con­dições de reproduzir a tecnolo­gia, mas não é fácil; trata-se de pessoal muito especializado.

Ele explica que o senhor Vamberto de Castro e os outros três pacientes que aguardam na fila não têm mais nenhuma al­ternativa de tratamento. “Tudo já foi tentado. Só assim elas podem entrar no estudo. Era a única forma que tínhamos de fazer; já estava tudo pronto. Nes­se caso, quando se tem todas as condições de fazer, a necessida­de médica é considerada inadiá­vel Seria até um erro do médico se dispuséssemos da terapia e não fizéssemos o teste.

Dimas Tadeu Covas diz que o “estudo clínico apresenta difi­culdades, ainda mais nesse as­sunto de terapias avançadas, que ainda não é totalmente regula­mentado no País. O ambiente regulatório para esse tipo de avanço não é favorável. O Brasil não tem o hábito de fazer isso (aprovar terapias novas). O mais comum é trazer coisas já apro­vadas por agências do exterior. Vamos fazer a proposta (para o teste clínico), claro, mas não vejo isso acontecendo de forma rá­pida. Em geral, um teste clínico para uma nova droga leva de um a dois anos para ser aprovado”.

“Acho que é uma questão estratégica para o País olhar para esse cenário e tomar uma decisão: vamos começar um estudo clínico, transformar em produto, combinar com as agências reguladoras, acelerar processos. O governo poderia tomar a frente, criar uma polí­tica pública como fez a Ingla­terra, que já oferece gratuita­mente o tratamento a crianças com leucemia e tem um sis­tema público muito parecido com o nosso SUS”, finaliza.

A terapia celular utilizada pelo CTC é chamada de CAR­-T. No tratamento, as células T (um tipo do sistema imunológi­co) são alteradas em laboratório para que reconheçam e ataquem as cancerígenas ou tumorais. A sigla em inglês CAR (chimeric antigen receptor) significa “re­ceptor quimérico de antígeno”.

As células T são coletadas do sangue do próprio paciente e ge­neticamente modificadas, com a inclusão de uma proteína espe­cífica – o receptor “quimérico”. A introdução desse receptor é que as torna agora capazes de com­bater as cancerígenas.

O tratamento poderá ser produzido em larga escala na medida em que ocorram adapta­ções nos laboratórios de produ­ção, o que exigirá investimentos. “Felizmente, os investimentos necessários para ampliação da capacidade produtiva são de pe­quena monta, da ordem de R$ 10 milhões”, afirma Covas. Nos Estados Unidos e Europa, apenas a produção das células chega a custar mais de U$ 450 mil dólares e as despesas médicas somadas fa­zem o custo do tratamento chegar a US$ 1,2 milhão.

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