Você não é de se jogar fora

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Daniela Barros *
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Não, caro leitor, isso não é uma cantada. Bem, talvez eu possa estar te cortejando, depende de como você irá interpretar, já que eu tenho sim um pedido a lhe fazer: seus órgãos. 
Segundo dados do último levantamento de 2019, feito pelo Ministério da Saúde, o número de pessoas em lista de espera por um transplante era de cerca de 44 mil. Mas, por qual motivo existe tamanha disparidade entre o número de pacientes aguardando por um órgão e a escassez dos mesmos? A resposta é tão simples, que nem parece ser a verdadeira, especialmente nos tempos atuais: a falta de diálogo. 
Tanto que no dia 27 de setembro do ano passado, data em que se celebra o Dia Nacional de Doação de Órgãos, foi lançada uma Campanha Nacional de Incentivo à Doação de Órgãos, que teve como slogan A Vida Continua. Doe Órgãos. Converse com sua família. 
Inúmeros trabalhos apontam que grande parte das famílias que nega a doação de órgãos de um parente que teve morte encefálica, justifica que nunca conversou com o falecido sobre seu desejo (de doar ou não), portanto, prefere não autorizar.
Vendo sob esta ótica parece simples, ou seja, basta falar sobre o tema com os parentes mais próximos e expressar a minha vontade. No entanto, a prática é bem diferente. Nossa cultura ocidental evita discutir sobre a morte e tudo mais que está relacionado a ela. Oras, para falar sobre doação de órgãos obrigatoriamente teremos que envolver o encerramento da vida. 
Nesse contexto, devemos refletir: “Se eu estivesse na lista de espera por um órgão, eu ficaria extremamente grato com o altruísmo de uma família que autorizou a doação. Este ato salvaria a minha vida e a de outras pessoas. Então, por que não doar?”. Além disso, há que se saber que a possibilidade de uma pessoa estar na fila por um transplante é três a quatro vezes maior do que a dela de ser um doador. 
Outro motivo para a recusa das famílias é a falta de conhecimento sobre a morte encefálica, um processo absolutamente irreversível. Imagine a cena: a pessoa sofreu um acidente e foi constatada a morte encefálica. No entanto, ao visita-la no hospital, sua temperatura corporal se mantém, há pulso, o coração bate e ela “respira” (unicamente por causa dos aparelhos de ventilação). A família, que acabou se sofrer um baque inimaginável, ainda precisa confiar neste diagnóstico e aceitar “desligar” seu ente querido, que, apesar de tudo, parece ainda estar ali.
Se este é o temor que te cerca e impede a sua decisão, procure entender mais sobre a morte encefálica. Explicando resumidamente, trata-se da completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro. Isto significa que, como resultado de um ferimento grave no cérebro, o sangue que vem do corpo e supre o cérebro é bloqueado e ele morre. Existe uma série de critérios que os médicos precisam seguir antes de constatá-la. 
Os testes incluem um exame clínico para mostrar que o paciente não tem mais reflexos cerebrais e não pode mais respirar por si próprio (por isso o uso do ventilador mecânico). Em muitos casos, os testes são realizados duas vezes, com intervalo de diversas horas, para assegurar um resultado exato. Além disso, outro teste pode incluir o exame do fluxo sanguíneo (angiograma cerebral) ou um eletroencefalograma. Eles são realizados para confirmar ausência do fluxo sanguíneo ou da atividade cerebral. 
Mas, por qual motivo o coração ainda bate? Isso ocorre pois, enquanto o coração tem oxigênio, ele pode continuar a bater. O ventilador providencia oxigênio para manter o coração batendo por várias horas. Sem esse socorro artificial, o coração teria deixado de bater, o que impossibilitaria, também, a doação dos órgãos.
Este tema realmente não é dos mais fáceis. Mas, eu o escolhi para inaugurar a nossa coluna, pois falar sobre doação de órgãos também representa promover a vida. Vamos aproveitar o exemplo deixado pelo apresentador Gugu Liberato, que não se furtou em conversar com a família sobre o seu desejo de ser um doador e assim foi feito. Informe-se sobre o assunto, tire suas dúvidas e converse com as pessoas mais próximas. Afinal, você não é de se jogar fora!

Jornalista especializada na produção de conteúdo médico e mestranda do Programa de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto Universidade de São Paulo (FMRP-USP) 

 

 

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