Luiz Paulo Tupynambá *
Ótimo voltar aqui após algumas semanas de ausência. Com pouca surpresa, no retorno das férias, descobrimos que o mundo não é o mesmo de três semanas atrás.
Imagine que você saiu de férias, sambou por praias lindas, porém com preços de praia mediterrânea, filas gigantescas na padaria, falta d’água bem na hora de tirar a areia do corpo. Mas, até aí, tudo muito normal. Na volta, engarrafamento recorde na subida da serra, parada para um “pipi-stop” na Anhanguera. Café requentado com preço de Roma e coxinha gelada com preço de iguaria vienense. Mas você sobreviveu a tudo isso e finalmente está em casa. E aí… surpresa!
Alguém bagunçou a casa na sua ausência. No lugar da sala de estar, construiu uma sala de jogos com um barzinho brega no canto; jogou fora sua cadeira de assistir TV; mudou sua cama para o quartinho dos fundos; sumiu com a casinha do cachorro e trocou a senha do alarme. Na porta da geladeira colou, com um ímã de propaganda da Pepsi-Cola, um bilhete com esse recado: Não abra, não use, não coma e não beba nada. Propriedade dos Estados Unidos da América. Certidão de confisco gerada por Ordem Administrativa do Mister Presidente, Ogro Primeiro, Senhor das Américas, Lorde Comandante dos Mares Navegados e Inavegáveis, Conde dos Fogos de Artifício Nucleares e Supremo Sacerdote da Ordem Laica dos Cavaleiros da Palavra Frouxa e Mandatário Fundador da Confraria dos Cabelos Esquisitos.
A transição da Economia Global para a Nova Economia está bem mais complicada do que se pensava. Grande parte disso é causada pelo bombardeio ao multilateralismo vindo dos Estados Unidos e da Rússia. A China prega a possibilidade de coexistirem dois modelos: o dela, baseado em negócios multilaterais e a não intervenção política ou militar em outros países; e o outro, proposto pela turma do Donald Trump e endossado pelo “amiguinho” Putin, que exige a volta aos “velhos e bons tempos” dos EUA, com a aplicação da política do Big Stick. Ela prega a existência de um Mandato Divino que reserva todo o Continente Americano para uso e deleite somente do sistema capitalista dos EUA.
Esse mandato dito divino, na verdade, é explorador, antambientalista, beligerante e escravocrata, reservando toda a riqueza das terras e mares situados abaixo do Rio Grande (fronteira com o México) e ao sul de Key West, na Flórida, para o desfrute dos cidadãos estadunidenses, aqueles a partir da terceira geração, pelo menos, que sejam brancos, cristãos e patriarcalistas. A indiada, os descendentes de escravos e os cucarachas mestiços de europeus que vivem e labutam ao sul desses marcos geográficos devem estar sempre à disposição para trabalhar e entregar tudo para a Casa Grande e Branca, situada em Washington, DC.
Todas as movimentações e atitudes desse segundo governo Trump mostram, cada vez mais, sua identificação com os ideais pregados pela Heritage Foundation e outras organizações ultraconservadoras, em seu conhecido Projeto 2025. Seus pontos principais:
Concentração do Poder Executivo: diminuição do papel do Legislativo e submissão do Poder Judiciário.
Controle do Funcionalismo Público: redução do número de funcionários ou substituição por funcionários identificados com a agenda conservadora.
Políticas Sociais Conservadoras: proibição do aborto, combate à pornografia.
Políticas “woke”: fim das políticas públicas de integração social das minorias étnicas, religiosas e de gênero.
Controle Rigoroso da Imigração: políticas de repressão sem quartel, incluindo deportações em massa.
Política Externa: reduzir o apoio financeiro, de armas e tropas, para outros países, em especial os da OTAN.
Economia e Energia: total desregulamentação nas duas áreas e foco principal no setor de combustíveis fósseis.
Implementar medidas de protecionismo comercial e ultraliberalismo em áreas como o Tesouro e o Federal Reserve.
Pode parecer que é só mais uma teoria da conspiração, mas olhe para o que está acontecendo mundo afora, sob a liderança de Trump. Marque o que já está rolando na lista acima. Pois é. Bem-vindo ao Glorioso Mundo Novo.
* Jornalista e fotógrafo de rua

