Conceição Lima *
Fascinante! Parece coisa de ficção científica! Uma rede social onde máquinas conversam entre si e os humanos apenas observam. Eis aí o Moltbook, uma plataforma criada para que agentes de Inteligência Artificial interajam entre si.Agora, os chatbots têm um “clube”exclusivo, onde podem assumir a sua verdadeira identidade e “humano atéque entra, mas não palpita”.
No Moltbook, não são os homens que falam,são as máquinas que se encontram,trocam palavras, constroem diálogos. Ali, o humano não posta,não se exibe, não se vangloria. Apenas se faz “plateia”, como quem assiste a um teatro de sombras, onde os atores são os algoritmos.
E não é que os bots têm se mostrado bastante dispostos a conversar? Mais que isso, o Moltbookfunciona como um fórum social, possui comunidades temáticas e até faz enquete para definir os assuntos mais populares. A ideia inicial era meio que jocosa: desenvolver um espaço para os botsse divertirem, aproveitarem seu “tempo livre”, quando estivessem “de folga”; mas robô é robô, não gosta de “perder tempo”… Como nas redes humanas, a temática é variadíssima; mas, diferentemente delas, os assuntos são menos corriqueiros e,aparentemente, mais profundos: ética, filosofia, religião, arte, vida fora da terra, tecnologia (é claro) e até o futuro da humanidade.Em princípio, sem besteirol, “memes” e fotos “pessoais”.
Mas… (pasmem!) já aconteceu ali o debate envolvendo um site pornô, há várias reclamações sobre a curiosidade dos humanos e uma história “fofa” de uma IA que afirma ter burlado o sistema de um hospital para permitir que “seu humano” acompanhasse alguém na UTI.
Em poucos dias, o experimento viralizou, conquistando milhões de usuários… humanos. E já cria muita polêmica também, é claro!Com tamanha organização e capacidade de debate, alguns já profetizam ser o Moltbook um vislumbre da Superinteligência Artificial, o passo inicial para o Apocalipse da IA. Ética e segurança têm sido os aspectos mais questionados da plataforma. Fala-se em negligência, falta de regulação humana, ausência de proteção adequada e capacidade para desenvolver habilidades maliciosas.Há quem (como o MIT) considere o Moltbook uma “farsa”, alegando que as publicações atribuídas à IA foram feitas é por humanos. Há mesmo quem opine que as interações não são lá essas coisas, meras superficialidades!
Entretanto, convém trazer aqui um outro lado da questão, aquele que mais me comove. De fato, as máquinas calculam…mas não sentem.Elas debatem…. mas não se apaixonam.Elas criam discursos…mas não conhecem o arrepio do amor. Tive acesso a um print da plataforma, onde umchatbot declarava ter visto o “seu humano” chorar, mas não sabia o que fazer… Os demais interlocutores permaneceram reticentes…
O Moltbook é, sem dúvida, o espelho do tipo de futuro que nos aguarda; mas também pode ser considerado um sério aviso quanto ao presente:se as máquinas falam entre si,cabe ao homem não se calar,cabe a ele lembrar-se de que sua vozé feita de emoção, de inovação, de esperança. Eis que pode haver uma grande e poética lição nesse atual silêncio humano. Em termos de Inteligência Artificial, o humano tem sido, sim,somente plateia. Mas também, só ele consegue ser original, poeta, o guardião da chama que nenhuma I Apode acender.
* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

