Antonio Carlos A. Gama *
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As edições de fim de semana do jornal da cidade em que morava eram recheadas de anúncios os mais variados.
Foi então que ele deparou com um que era singular e até extravagante: “Compram-se tristezas. Pagamos à vista”
Se tristezas não pagam dívidas, como é que se compravam tristezas?
Ligou para o número do telefone indicado no anúncio.
— Alô, como posso ajudá-lo?— respondeu-lhe uma voz feminina, do outro lado da linha. Uma voz alegre em que tiniam guizos.
— É a senhora que compra tristezas?
— Sim, sou eu mesma. Compro e troco. O senhor tem alguma tristeza para vender? Se tiver, venha pessoalmente, porque preciso antes avaliar a sua tristeza.
Foi procurar a compradora de tristezas no endereço que ela lhe passou. Uma mulher de seus trinta e poucos anos,muito bonita, com um vestido estampado amarelo, de sorriso aberto e acolhedor, recebeu-o.
— É o senhor que me telefonou para vender-me a sua tristeza? Entre e diga-me qual é ela para que eu possa ver quanto vale.
Contou-lhe que a mulher que amava o abandonara e fora viver com o seu melhor amigo. Além disso, o seu canarinho amarelo, que cantava tão bem, morrera. Não bastasse isso, perdera o emprego.
— A sua é uma tristeza é muito comum e não vale grande coisa. A mulher, o senhor podeachar outra; o canarinho, pode substituir por um pintassilgo; e o emprego, sem dúvida que achará outro. Em todo caso, para que o senhor não saia daqui de mãos vazias, ofereço-lhe mil reais pela sua tristeza, nem um tostão a mais. É pegar ou largar.
Ele aceitou a oferta.
— Então, o senhor vai ali no banheiro, tire toda a roupa e sacuda-a, lave o rosto, vista-se de novo e deixe a tristeza em cima da pia.
Ele fez o que a mulher lhe ordenara. Sentiu-se mais aliviado, saiu, e recebeu o pagamento.
— Que é que a senhora faz com as tristezas compradas?
— Vendo-as, troco-as, e tenho algum lucro.
— E enquanto não as vende?
— Enquanto não as vendo, alimento-as com açúcar. Tenho um armário cheio delas.
Ele foi embora e seguiu os conselhos da mulher. Comprou um pintassilgo e arranjou um novo emprego. Outra mulher é que não achou, isto é, achou muitas, mas nenhuma o consolava da perda da amada.
Tornou a procurar a mulher que comprava tristezas.
— Fiz o que a senhora me aconselhou. Já tenho o pintassilgo e arranjei outro emprego. Quanto a outra mulher…
— Eu sei — a compradora de tristezas lhe disse. Passarinhos e emprego são fáceis de repor. Mulher também. Mas, o amor é preciso cultivá-lo, como as tristezas. E o amor não se compra, nem se vende.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

