Rui Flávio Chúfalo Guião *
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O excelente escritor Leonardo Padura, um dos meus preferidos, lançou ano passado mais um ótimo livro, falando outra vez de sua grande paixão, a decadente cidade de Havana, capital de Cuba.
Nascido naquela ilha do Caribe no ano de 1955, onde fez todos os seus estudos, foi testemunha da alegria e festas que fizeram daquela urbe a Riviera Caribenha, com sua boemia, seus cabarés, sua gastronomia, que a tornaram potência musical e arquitetônica.
Quando eclodiu a Revolução Cubana e a tomada do poder por Fidel Castro, Padura tinha somente quatro anos. Assim, viveu muito pouco as mudanças que ocorreram, até transformar o país no único comunista das Américas.
Junto com as mudanças, iniciou-se um período de decadência da cidade, que destruiu sua riqueza, sua beleza e suas festas.
Morador do bairro de Mantilla, fundado por seus bisavós, onde nasceu, já adolescente, não entendia bem quando seus pais falavam em “ir até Havana”, como se entre sua casa num subúrbio e a capital houvesse necessidade de uma grande viagem.
Fez seus estudos nas escolas então estatizadas, assistiu à divisão das grandes mansões entre várias famílias, a expropriação das empresas e das propriedades privadas, mas nunca deixou de admirar a capital que muito amava, seus pontos preferidos, como o Malecón, calçada que bordeja o oceano e era e é ainda o centro das atividades dos havaneros.
Tinha como meta tornar-se comentarista esportivo, mas com a “decisão socialista planificada”, como diz, foi matriculado no curso de letras, contra sua vontade.
Quase no fim do curso, começou a estagiar no suplemento literário “El Caimán Barbudo”, do jornal mensal Juventud Rebelde. E sua verve literária não parou mais.
Escreveu treze livros de sucesso, seis deles tendo o policial Conde como protagonista, todos ambientados em Havana. São obras policiais muito delicadas, com análise das personagens, ação constante, mostrando um policial durão, mas, ao mesmo tempo ciente de suas obrigações. Cultiva muito os amigos, companheiros de jantares e rum.E completa sua renda com a venda de livros raros, que encontra nos porões abandonados da cidade. Os livros com Conde já foram traduzidos para várias línguas e também deram origem a séries do streaming.
Além dos policiais, Padura escreveu mais sete livros, dos quais se salientam “O homem que Amava Cachorros “ sobre a vida e o assassinado de León Trotsky no México e “Água por Todos os Lados “, onde faz elegantes reflexões pessoais.
Publicou em várias revistas e jornais, inclusive em nossa Folha de São Paulo, coluna quinzenal de excelentes crônicas., entre fevereiro de 2014 a janeiro de 2019.
Com “Ir Até Havana”, continua narrando seu amor pela cidade, unindo seu texto com reproduções de seus livros, numa obra fundamental para entendermos a riqueza da criação de Padura e das suas qualidades de escritor.
Analisa com tristeza a enorme deterioração da capital, hoje uma pálida lembrança de seus áureos tempos, mas que ainda não perdeu o encanto para o autor, que vai descrevendo os locais com sensibilidade e lembrando os fatos neles vividos.
Excelente leitura, de um autor contemporâneo, um dos maiores da atualidade.
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

