Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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O problema não é a festa de aniversário e “Com quem será? Com quem será?”, mas fazer 66 anos pode ser um choque! Primeiro porque são dois números iguais, como um parzinho, e a redundância empobrece a mensagem. Segundo porque são números pares, um desagrado para quem gosta de ímpares. Somando as unidades, obtém-se outro número par. Arre!
Horrível pensar que ao longo de 365 dias, sempre que perguntarem a idade, esse número terá que ser mencionado. Aborrecedor.
Uma ideia pode ser pular o dito cujo numérico e permanecer no 65 até completar 67 – esse, sim, lindo, majestoso, esplendoroso, charmoso, vigoroso. Mas poderia parecer uma tentativa de diminuir a idade, o que é desrespeitoso à própria vida, além de contribuir para o etarismo. Dá sempre um certo trabalho ter mais um ano de vida, por isso ir para trás é desvalorizar toda a labuta realizada.
Também se pode saltar aquele número desinteressante e fazer 67 maravilhosos durante dois anos. Mas sempre há os vigilantes da idade alheia, prontos a dizer: “Mas você não fez 67 no ano passado?”
Para quem gosta de números, a brincadeira é infinita e pode ser feita com qualquer idade. Digamos, 72. 7+2=9. 9 é múltiplo de 3. 3 é um número mágico, indica harmonia e criatividade. Então, 72 anos é uma idade maravilhosa. Já que é para imaginar, a ideia é fantasiar algo bom, positivo, claro!
Outra estratégia é não atribuir valor excessivo ao número que representa a idade. Tanto faz se é par, ímpar, inteiro, racional; considere que todo número é irracional. Afinal, você não é um número!
Você é o que fez até aqui. Também é o que não fez. Além disso, é o que não pôde fazer.É o que faz e o que fará. É a soma das escolhas nas possibilidades encontradas. É protagonista da própria vida, bem como coadjuvanteem cenas em que outros merecem destaque. Você é a consciência da morte e também a tentativa danosa de negá-la.
Quer sejam anos, meses, dias, o tempo é o que se faz dele. Conhece gente que faz mais em 30 min do que outras em 3h? Mais em 3 anos do que em 30? O tempo, imperturbável, observa com profunda indiferença a inércia de uns e a ansiedade de outros. Ele apenas segue o curso inexorável, independente de queixas alheias.
Honrar a vida é valorizar a idade que se tem, com as marcas indeléveis do tempo. Cada ano de vida é o fim de um ciclo e é também o recomeço. É o que a gente fizer que seja.
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, na área de ensino de português para estrangeiros

