Tribuna Ribeirão
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Psicologia da vida cotidiana (27): As luas cheias que me restam

José Aparecido Da Silva*

 

Numa lua cheia do mês julho, revisitando a Andradina do rei do gado, apesar dos anos já tão distantes, lembrei-me do passado. De um jovem judeu brilhante que, amigo dos amigos, e ativo na política local, cedo despertava para, correndo as feiras-livres, buscar sobras saudáveis que, distribuídas aos mais necessitados, saciar-lhes iria a fome. Ocasião em que muitos, admirados de sua dedicação em cuidar do próximo, chegavam a afirmar que a grande catedral da cidade só havia sido reerguida graças à sua ação incessante, compartilhada pelos colegas, os quais, através de rifas, jogos e festas juninas buscavam minimizar as agruras do povo. Tamanha era sua dedicação que se tornou lugar-comum o refrão, “Graças aos santos meninos, tudo aqui vai caminhando bem”. Porém, como tem sido comum na história, a inteligência é qualidade que nunca fica impune. Prova disso? Não tardou que o jovem fosse jurado de morte.

Concedida-lhe a voz, em eventos festivos, religiosos ou não, logo manifestou-se sobre a importância de, os que possuíam, terem o direito ao cultivo das terras improdutivas da região. Porém, em isso ocorrendo, não tardou que baderneiros, infiltrados em meio ao povo pacífico, se dispersassem pela cidade, difíceis, algumas vezes, de serem controlados. Contrariava, então, o menino, a elite e os políticos da localidade. Mas, em discursos calorosos e aplaudidos, a estes ele afirmava faltar inteligência, criatividade e sabedoria. Políticas públicas esquecidas, recursos humanos escasseados e finanças comprometidas, que ações inteligentes tais políticos construíam? Criticava, então, equipes de governo compostas em função das acomodações partidárias e, raramente, em função das habilidades manifestadas por seus membros. Criatividade? Entrava governo e saía governo, passava ano e passavam anos, nada se criava enquanto tudo se perdia. Sabedoria? Para ele, nenhum deles era capaz de aprender, sequer, o mínimo, com o passado. Quiçá com a vida política. Integridade era, então, um atributo que rareava nos políticos daquelas bandas. A premissa básica? Enriquecimento rápido pelos dutos do governo.

Tanto e tanto irritou, então, que só restou aos inimigos jurarem-no de morte. Antes, porém, a elite financeira, e outros descontentes da região, pressionaram a Câmara Municipal para que determinassem, por lei, que ele fosse considerado “persona non grata” e, imediatamente, expulso a bem do município. Conta-se que pressionado, o Presidente da Câmara tentou, em três ocasiões, aprovar tal item. Mas, o pároco local, amigo e colega de ações do jovem judeu, liderou invasões organizadas à Câmara impedindo que tal fato ocorresse. Dizem antigos moradores que, numa delas, a multidão era tanta que se afirmava que meia Andradina estava nas portas estreitas daquela “casa de leis”. Temendo que atos violentos se generalizassem para toda comunidade, recaindo sobre os nobres vereadores tal responsabilidade, estes jamais incluíram tal item na pauta, chegando, alguns, a afirmar que jamais ouviram falar de tal evento.

Então, os festejos do padroeiro da cidade. Ocasião em que um polêmico discurso do jovem era ansiosamente aguardado. Mal sabia, porém, que seu assassinato, a ocorrer em tal evento, já tinha sido encomendado. Afiando-se em palavras, subiu ao improvisado tablado erguido na frente dos portões da catedral. A mesma catedral que, outrora, sacrificadamente, havia ajudado a erguer. Então, enchendo os pulmões, corajosamente discursou: “Contaram-me, hoje, que estou jurado de morte! Jurado de morte por clamar justiça social! Jurado de morte por clamar menor desigualdade de renda! Que devo morrer por querer dar um cantinho de terra pro meu povo! Mas… mesmo sabendo disso… não me acovardei! Pelo contrário: de coragem me enchi! Porque sei que minha coragem não é única! É a soma da coragem de todos vocês! E é assim que, das luas cheias que ainda me restam, nenhuma deixará de ser dedicada ao bem-estar do meu povo! O meu povo escolhido! E se aqui me matarem, por ser este o desejo de Deus… se cair pra trás cairei nos braços de Jesus… e se cair pra frente, abrirei meus braços, porque cairei nos braços do meu amado, e necessitado, povo!” O jovem, então, que nunca havia premeditado carreira política, foi ovacionado e carregado por todos.

Soube, muitas luas cheias depois, que, até onde a legislação permitiu, foi ele o mais brilhante prefeito que Andradina tivera em sua história. E, dentre os inúmeros, e mais belos, atributos desse jovem, três deles o povo andradinense jamais esqueceu: sua inteligência, bondade e integridade.

 

Professor Titular Sênior da USP-RP

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