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A Colômbia e sua Literatura (66): Héctor Abad Faciolince

Rosemary Conceição dos Santos*

 

De acordo com especialistas, Héctor Abad Faciolince nasceu em Medellín, na Colômbia, em 1958. Nesta cidade, estudou Medicina, Filosofia e Jornalismo, sendo expulso da Universidade Pontifícia Boliviana devido a um artigo irreverente contra o Papa. Viajou então para Itália, onde se licenciou em Literaturas Modernas, na Universidade de Turim. Iniciou aí uma longeva colaboração com a imprensa de vários países. Regressou à Colômbia em 1987. Nesse ano, após o assassinato do seu pai pelos militares colombianos, foi alvo de ameaças de morte, decidindo refugiar-se novamente em Itália. Recebeu duas vezes, em 1998 e em 2006, o Prémio Nacional de Jornalismo Simón Bolívar (Colômbia). Além de ensaios, traduções e crítica literária, publicou, entre outros, os romances “Tratado de culinaria para mujeres tristes”, “Testamento involuntário” e “Salvo mi corazón, todo está bien”.

“Tratado de culinaria para mujeres tristes” não é um tratado, nem um livro de receitas, parecendo ter sido escrito para mulheres alegres — alegres demais, aliás. Héctor Abad, uma das principais vozes da literatura colombiana, aborda a psicologia feminina com humor sutil e propõe o que ele mesmo chama de “antídotos repentinos para a melancolia persistente”. Receitas para sedução, conselhos para superar a dor de um coração partido ou a solteirice, remédios para a tristeza. Um trecho? “Quem disse que é proibido ficar triste? Não deixe que lhe prescrevam felicidade como se estivessem prescrevendo um tratamento com antibióticos. Se você permitir que tratem sua tristeza como uma perversão, ou na melhor das hipóteses como uma doença, você estará perdido: além de ficar triste, você se sentirá culpado. E não é sua culpa estar triste.” De acordo com a crítica, trata-se de “uma profunda compreensão da psique feminina”, “uma sabedoria lacônica da vida que, transparecendo em suas recomendações peculiares, é um bálsamo para a alma, até mesmo para a alma masculina” e “a compreensão serena da natureza humana e conselhos de como construir pontes, ou reconciliar, a lacuna entre corpo e mente”.

“Testamento involuntário” é uma coletânea de poemas, reunidos a partir das memórias e dos cadernos de Abad Faciolince. “Em certo sentido, a poesia representa a verdade instintiva da linguagem despojada da tirania da razão. Paradoxalmente, até mesmo regras poéticas consagradas (musicalidade, ritmo, rima e métrica) trazem à tona o profundo, pois a busca por uma palavra não reside na lógica, na coerência ou na clareza, mas em sua eufonia, e é assim que os pensamentos mais primitivos, imprevistos ou instintivos se manifestam. É por isso que o poeta que consegue combinar palavras na frase perfeita é imbuído de um prazer primordial.” Um poema? “Me pongo triste cuando estoy contento y cuando me entristezco me alborozo. El sencillo secreto de mi gozo está en saber que es breve el sufrimiento”. Traduzindo, “Sinto tristeza quando estou feliz, e quando estou triste, me alegro. O segredo da minha alegria é saber que o sofrimento é breve”.

“Salvo mi corazón, todo está bien” trata da personagem padre Luis Córdoba, que está na fila de espera por um transplante de coração. Entretanto, por seu porte físico, alto e robusto, o mesmo encontra dificuldade na busca por um doador. Como os médicos o aconselham a repousar e sua residência tem muitas escadas, ele se instala em uma casa onde vivem duas mulheres, uma delas recém-separada, e três crianças. Bondoso e culto — crítico de cinema e especialista em ópera — Córdoba gosta de compartilhar seu conhecimento com essas cinco pessoas, logo se vendo envolvido e fascinado pela vida familiar delas. Com isso, começa a desempenhar o papel de patriarca e a repensar suas próprias escolhas de vida, coloca suas crenças e seu otimismo inabalável à prova em um mundo hostil. Sua crise existencial, em meio a personagens cheios de desejo de viver, nos mostra uma visão do casamento como uma fortaleza sitiada: aqueles que estão dentro querem sair, e aqueles que estão fora querem entrar. Um trecho? “Talvez eu não quisesse apenas que o coração de outra pessoa continuasse vivendo, mas também que o coração de outra pessoa começasse uma segunda vida.”

Em 25 de agosto de 1987, Héctor Abad Gómez, médico e ativista de direitos humanos, pai do autor, foi assassinado em Medellín. “El olvido que seremos” (O esquecimento que seremos) é uma biografia ficcionalizada dele, escrita por seu filho. Um relato comovente e pungente de sua família, que também reflete a violência infernal que assola a Colômbia há cinquenta anos. “Quando criança, eu desejava algo impossível: que meu pai nunca morresse. Como escritor, desejei fazer algo igualmente impossível: que meu pai ressuscitasse. Se existem personagens fictícios — feitos de palavras — que sempre estarão vivos, não é possível que uma pessoa real permaneça viva se a transformarmos em palavras? Era isso que eu queria fazer com meu pai falecido: torná-lo tão vivo e real quanto um personagem fictício.”

Colaborador regular de outros jornais e revistas latino-americanos e espanhóis, Abad tem sido palestrante em diversas universidades do globo.

Professora Universitária

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