Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Guardando repouso relativo depois de cirurgia, aproveitei meu tempo para ler bons livros. Dentre eles, “O Ladrão no Fim do Mundo: Como um inglês roubou 70 mil sementes de seringueira e acabou com o monopólio do Brasil sobre a borracha “.
Seu autor, o americano Joe Jackson é jornalistas investigativo e autor de vários livros, sendo o mais conhecido este que citamos.
Ele começa a obra descrevendo algumas grandes fases históricas.
A primeira, a Era Vitoriana, que vai de 1837 a 1901, período do longo reinado da Rainha Vitória, foi o apogeu do Império Britânico. A Revolução Industrial, o nascimento de novas tecnologias deram à Inglaterra a primazia do mundo. Os ingleses entendiam que deveriam levar seus valores a todos e, para sustentar seu predomínio mundial era preciso criar colônias e explorar seus recursos naturais. E a “superioridade britânica” justificava os mais abusivos atos, pois os ingleses se consideravam uma raça privilegiada, com a missão divina de desenvolver os menos desenvolvidos.
Outra instituição da época era o Kew Gardens. Fundado em 1759, na Era Vitoriana o jardim tornou-se local de busca pela flora mundial, com inúmeras viagens trazendo para a Inglaterra todo tipo de plantas, com o objetivo se torná-las comercialmente importante para o reino.
Neste mesmo período, surge o explorador, pessoas inglesas que se dispunham a conquistar o mundo, nas possessões do Império e em outros locais, sendo a fortuna a recompensa para os bem sucedidos.
Também há uma descrição da importância da seringueira, no final do século XIX e começo do XX, quando a revolução industrial, novas descobertas, avanços científicos tornaram a borracha indispensável para a nascente indústria automobilística, os preparativos para a I Guerra Mundial e outros usos, sendo do Brasil o seu único produtor.
O nosso ladrão chamava-se Henry Wickham e nasceu em Londres no ano de 1846. Filho de uma família de classe média subitamente empobrecida, aos 20 anos decide tornar-se explorador.
Escolheu a Amazônia como destino e depois de várias tentativas infrutíferas de se tornar fazendeiro, falhou em suas empreitadas. Nada dava certo, embora mantivesse uma força de vontadeque o impelia a prosseguir sempre. Tinha sempre novos projetos, que tentava, sem sucesso, vender, em busca de financiamento.
Em 1866, ano de sua chegada ao Brasil, começava o ciclo da borracha. Ela era extraída de uma árvore nativa na Amazônia, a Hevea brasiliensis, por trabalhadores que sangravam o caule de exemplares abundantes na região, escondidos na vastidão da floresta amazônica. O látex delas extraído trouxe extraordinária riqueza para a região e despertou a cobiça dos ingleses.
Em 1876, Henry Wickham conseguiu contrabandear 70 mil sementes de nossas seringueiras, que vendeu para os Kew Gardens. As plantas que vingaram foram enviadas para várias colônias britânicas.
Na Malásia, deu-se a melhor adaptação e, em 1928 a produção da colônia inglesa desbancou a borracha amazônica. Com isto, houve um colapso total e rápido da produção brasileira, acabando com o sonho de grandeza da Amazônia.
O livro acompanha a vida de Henry Wickman, sempre um perdedor, até que, no fim da vida, foi agraciado com o título de Cavaleiro do Império Britânico, reconhecendo o legado que veio com o furto de nossas sementes.
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

