O motorista que passou pela avenida Nove de Julho, no cruzamento com a avenida Independência, entre o Centro de Ribeirão Preto e o Jardim Sumaré, na Zona Sul, precisou ter paciência. O piso de paralelepípedo voltou a ceder, forçando a interdição de uma das faixas da via e a sinalização do trecho, conforme imagens feitas pelo fotógrafo Alfredo Risk. O tráfego ficou lento nos horários de pico.
O piso começou a afundar e os paralelepípedos começaram a soltar A prefeitura de Ribeirão Preto instalou cavaletes e fitas para sinalizar o trecho. Entre dezembro e fevereiro, alguns pontos próximos a bueiros e galerias de água pluvial também cederam entre a Independência e a Sete de Setembro, afetando cruzamentos da Nove de Julho com a Floriano Peixoto e a Marechal Deodoro.
De acordo com a Secretaria Municipal de Obras Públicas, a obra está dentro do prazo de garantia contratual e caso os problemas não sejam solucionados a empresa poderá ser acionada judicialmente. “A empresa responsável pelas obras realizadas na avenida Nove de Julho executava, na tarde desta sexta-feira (6), os reparos solicitados em trechos da via”, diz em nota enviada ao Tribuna.
O problema surgiu no final do ano passado, nos cruzamentos da Nove de Julho com as ruas Floriano Peixoto, Marechal Deodoro e Sete de Setembro. Na primeira quinzena de fevereiro, funcionários da empresa Era-Técnica Engenharia Construções e Serviços Ltda. fizeram reparos nos trechos.
Um calceteiro – profissional especializado na pavimentação e revestimento de ruas, calçadas e praças com pedras, como paralelepípedos, granito ou pedra portuguesa – e um ajudante trabalharam na reparação. A via divide a região Central da Zona Sul da cidade.
O Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (Conppac) de Ribeirão Preto atribui o problema a falhas no projeto de restauração e revitalização da avenida. A empresa responsável já foi notificada novamente para executar vistoria na e manutenção no local.
Os problemas na Nove de Julho renderam denúncia ao Ministério Púbico de São Paulo (MPSP). O presidente do Conppac de Ribeirão Preto, Lucas Gabriel Pereira, protocolou pedido de investigação, com abertura de inquérito civil, por suposta improbidade administrativa cometida na gestão do ex-prefeito Duarte Nogueira (na época no PSDB e hoje no PSD).
A denúncia foi protocolada em 23 de janeiro para a promotora do Patrimônio Histórico, Ana Carla Fróes Ribeiro Tosta, e tem como objeto as obras de reforma e restauração da avenida Nove de Julho, licitada e iniciada na gestão Duarte Nogueira – governou a cidade de 2017 a 2020 e de 2021 a 2024.
Segundo Lucas Gabriel Pereira, a Promotoria do Patrimônio Histórico requisitou ao Conppac um levantamento de todos os problemas causados pela obra na avenida Nove de Julho. Porém, o conselho não tem recursos e depende da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo para fazer a perícia. O caso está sendo discutido.
Entre o final de dezembro e o início deste ano, as fortes chuvas forte que atingiram a cidade provocaram inundação em parte da avenida. As galerias pluviais não foram capazes de dar vazão e escoar todo volume oriundo de ruas localizadas acima da via, como a João Penteado.
Já os paralelepípedos de alguns trechos da avenida também estão afundando ou se soltando. Segundo a administração Ricardo Silva (PSD), a Secretaria Municipal de Obras Públicas já notificou a Construtora Era-Técnica Engenharia Construções e Serviços Ltda. sobre os problemas.
“Por se tratar de via tombada como patrimônio histórico, a Avenida Nove de Julho segue diretrizes técnicas específicas definidas pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural do Município (Conppac). Entre essas determinações está a impossibilidade de realizar rejuntamento entre os paralelepípedos, conforme previsto no projeto elaborado na gestão anterior.”
“O assentamento das peças segue o método original da avenida, com base em areia, característica que preserva o padrão histórico da via, mas que pode demandar manutenções pontuais, especialmente em períodos de chuvas intensas, quando o fluxo de água sobre a superfície pode ocasionar deslocamentos localizados dos paralelepípedos”, informa.
“A Prefeitura segue acompanhando tecnicamente a execução dos serviços e fiscalizando o cumprimento das obrigações contratuais. Eventuais ocorrências pontuais decorrentes das condições climáticas ou das características construtivas da via são prontamente avaliadas”, emenda.
As obras na avenida Nove de Julho começaram em 23 de julho de 2023. Em dezembro do mesmo ano, 40% dos trabalhos deveriam estar concluídos. Porém, apenas 8% foram realizados pela Construtora Metropolitana, que teve o contrato rescindido unilateralmente péla prefeitura sob o argumento de não cumprimento do cronograma definido em contrato.
A empresa Era-Técnica Engenharia Construções e Serviços Ltda. venceu o novo certame lançado pela administração com a proposta no valor global de R$ 32.411.776,19. A economia foi de 5,63% em relação ao custo estimado inicialmente em edital, de R$ R$ 34.344.037,88, desconto de R$ 1.932.261,69. Porém, o acréscimo chega a R$ 1.279.674,42. Houve aumento de 4,11% em relação aos R$ 31.132.101,77 propostos pela Construtora Metropolitana, que recebeu R$ 2.517.675,94 – o valor remanescente era de R$ 28.614.425,83.
No total, a obra custou R$ 34.929.452,13 aos cofres públicos. A avenida foi liberada ao tráfego no final de março do ano passado. A assessoria do ex-prefeito Duarte Nogueira afirma, em nota, que eventuais problemas estruturais ou vícios construtivos devem ser analisados considerando quem detinha a responsabilidade administrativa no momento da finalização, da aceitação técnica e da liberação da obra.
Afirma ainda que o projeto original previa a implantação de uma nova galeria de drenagem pluvial interligando a avenida Nove de Julho à Américo Brasiliense. “Contudo, essa interligação não foi executada, mantendo o escoamento das águas em rede antiga e subdimensionada, o que pode comprometer o desempenho hidráulico do sistema”, cita.

