André Luiz da Silva *
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Durante a quaresma a Igreja nos convida a atravessar o deserto. A Quaresma chega sempre assim: discreta, austera, chamando-nos pelo nome, pedindo menos ruído e mais silêncio, menos vaidade e mais verdade. São quarenta dias que antecedem a Páscoa, tempo de jejum, oração e caridade — um caminho interior que cristãos católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos percorrem com o coração voltado para a conversão.
Mas como falar de paz quando o noticiário despeja imagens de bombas? Como sustentar o jejum enquanto cidades ardem? Entre manchetes que narram ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã — ecos de conflitos já vistos em Gaza — e respostas militares iranianas que parecem mais recados de poder do que tentativas de justiça, o mundo parece ter desaprendido a linguagem da misericórdia.
Dizem que são disputas econômicas. Falam em geopolítica. Invocam Deus como se Ele assinasse tratados de guerra. E, no entanto, se escavarmos a memória da fé, veremos que as raízes não são de ódio, mas de encontro.
Maomé, por exemplo, não rejeitou por completo o judaísmo nem o cristianismo. Ao contrário, reconheceu neles uma herança espiritual a ser preservada. A tradição islâmica o apresenta como alguém enviado para restaurar ensinamentos que teriam sido esquecidos ou corrompidos. Entre suas exortações mais fortes estavam a defesa dos pobres, dos órfãos e das viúvas — e a crítica severa aos juros abusivos e à desigualdade social.
Não soa familiar?
Séculos antes, nas estradas poeirentas da Galileia, Jesus Cristo já proclamava bem-aventurados os pobres, denunciava a hipocrisia religiosa e colocava o amor ao próximo acima de qualquer ritual vazio. Ele tocava leprosos, comia com pecadores, chorava com as mães enlutadas. Sua revolução era a ternura.
E aqui surge uma reflexão antiga, quase esquecida, mas profundamente atual. A tradição cristã ensina que a desobediência de um único homem — Adão — abriu as portas do pecado e da morte para toda a humanidade. Em contraste, a obediência e a graça de um único homem — Jesus Cristo — trouxeram justificação, vida e perdão.
À luz dessa lógica espiritual, inquieta perceber como, em nossos dias, a megalomania de um certo presidente parece novamente expor toda a humanidade aos riscos de sua própria arrogância. A história insiste em nos lembrar que decisões tomadas no coração de poucos homens podem repercutir como tempestades sobre milhões de vidas.
E nós? O que fizemos dessa herança comum?
Talvez a barbárie nunca tenha deixado de existir. Apenas trocou a espada pelo míssil guiado por satélite. A crueldade ganhou alta definição. A indiferença agora viaja em tempo real. Mas o coração humano continua sendo o mesmo campo de batalha onde se decide amar ou odiar.
A Quaresma, então, deixa de ser apenas um tempo litúrgico e se torna um espelho incômodo. Não se trata apenas de jejuar de carne às sextas-feiras, mas de jejuar da violência das palavras, da pressa em julgar, do prazer secreto em ver o “inimigo” derrotado. Não se trata apenas de esmolas ocasionais, mas de uma caridade que começa no respeito radical pela dignidade do outro — mesmo quando pensa diferente, mesmo quando crê diferente.
Confesso: também me indigno. Também me revolto diante da injustiça travestida de estratégia. E, no entanto, algo em mim sussurra que a indignação, se não for purificada, pode se transformar no mesmo veneno que critico.
Por isso, faço minhas orações. Escrevo minhas poesias. Tento manter acesa a chama da consciência. E, se me restar paciência — essa virtude tão escassa — quero imitar o Crucificado que, suspenso entre o céu e a terra, ainda encontrou forças para dizer:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Será que não sabem?
Ou será que sabemos demais e amamos de menos?
A conversão que a Quaresma propõe não é geopolítica; é cardíaca. Começa no íntimo, quando reconheço que a paz mundial passa, inevitavelmente, pela paz que cultivo — ou saboto — dentro de mim.
Talvez não possamos deter as bombas com as próprias mãos. Mas podemos desarmar o coração. E, quem sabe, se muitos o fizerem, o deserto floresça outra vez.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

