Tribuna Ribeirão
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Semiótica ajuda a paquerar

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Mencionei a semiótica no artigo sobre filmes e uma leitora perguntou: O que é isso? É uma ótica pela metade?

Dizer que a semiótica estuda os signos mais atrapalha do que ajuda, pois vêm à mente os signos do zodíaco, o horóscopo. Ainda não é isso.

A semiótica estuda os processos de significação, como construímos e como interpretamos significados. Muitas vezes recorremos à língua, ao idioma, para comunicar nossas ideias. No entanto, há várias linguagens que também comunicam: gesto, expressão fisionômica, entonação, moda, cores, cheiros, imagens etc.

A semiótica examina essas linguagens, todas as linguagens. Mesmo sem estudar as teorias semióticas, o conhecimento das diferentes linguagens é intuitivo e se manifesta no dia a dia. Quando explicamos algo que julgamos compreensível e a pessoa não entende, dizemos: Quer que eu desenhe?

Desenhar significa utilizar uma linguagem não verbal, não composta de verbo (verbo = palavra). Então, além da linguagem verbal, que pode ser oral ou escrita, temos mensagens veiculadas por meio de signos: tudo aquilo que representa algo. Ora, como há uma potência comunicativa em tudo, tudo é signo e é objeto de estudo da semiótica.

A maneira como o texto é mostrado no jornal, por exemplo, é pleno de sentido. A diagramação pode esconder ou ressaltar determinado fato, basta avaliar o que aparece na primeira página. Nas escolhas, a empresa pode fazer um apagamento de algum fato, colocando-o num pé de página, ou seja, no canto inferior de alguma página par (página da esquerda, com o jornal aberto), enquanto o canto superior da página ímpar (página da direita) concentra as notícias de maior relevância. Não se trata da mensagem verbal, mas da posição escolhida para veicular a notícia.

Nos livros o tipo e o tamanho da letra, a gramatura e a cor do papel, a paragrafação, as margens são todos elementos não verbais imbricados na mensagem. O leitor pode não ter consciência deles, mas eles seduzem ou repelem e influenciam no processo de leitura. A capa do livro, por óbvio, é signo puro de sedução.

No caso da fotografia, a utilização jornalística é ainda mais criativa e a empresa pode dizer coisas que seriam comprometedoras se ditas no código verbal. O exemplo mais emblemático é uma foto de Jânio Quadros: a cabeça voltada para o lado esquerdo, o pé esquerdo direcionado para a direita, o pé direito para a frente, o corpo todo torto. A genialidade do fotógrafo Erno Schneider em registrar a fração de segundo em que essa postura ocorreu sugere, no não verbal, a incoerência das ações do então presidente.Vale a pena prestar bastante atenção nas mensagens embutidas nas fotos jornalísticas.

A maneira como utilizamos o espaço físico também é permeada por signos.Nas cidades os espaços públicos podem ser convidativos à interação social ou sugerir uma passagem rápida, sem contemplação. Muitas cidades têm ruas e avenidas projetadas para carros, com espaços reduzidos para transporte público e zero preocupação com bicicletas e pedestres. O arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl analisa a gramática visual em grandes cidades.  

A proxêmica, ramo da semiótica que se ocupa do espaço pessoal e social, mostra como a distância interpessoal causa conforto ou confronto, dependendo da cultura. No Brasil, conversamos mais próximos e às vezes nos tocamos, o que pode ser desconfortável e invasivo para um inglês.

Há ainda os estudos da cinésica, parte da semiótica que investiga os movimentos corporais, popularizado como “o corpo fala”. Quando conversamos, usamos o idioma, mas também gestos, expressões faciais etc. Pela entonação percebemos a ironia; pelo tom de voz reconhecemos se a pessoa está alegre ou triste, segura ou insegura.

Às vezes compreendemos esses sinais de forma inconsciente e nem sabemos explicar por que desconfiamos de algo, mas as palavras, desalinhadas das outras linguagens, não convencem. Exemplo: a pessoa jura que adora a sua companhia, mas mantém o olhar distante, os braços cruzados e um ar blasé. Em que você acredita: no verbal ou no não verbal? Fique esperto!

No jogo amoroso, as mensagens podem ser inconscientes e, por isso mesmo, plenas de significado. Para paquerar, comece pelo pé do ser desejado: os pés estão direcionados para você? Se sim, prossiga o flerte. O corpo se inclina levemente na sua direção? Então o caminho está aberto. Como quem não quer nada, coloque a mão no seu próprio rosto. Se ele ou ela imitar o seu gesto, está no papo. Mais não digo, senão o editor corta no pé.

[No jargão jornalístico, cortar no pé significa eliminar as linhas finais.]

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, na área de ensino de português para estrangeiros

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