José Eugenio Kaça *
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Ouço muitos saudosistas dizer que no passado a vida era melhor, e que estamos vivendo o fim dos tempos, e usam a religião para convalidar suas afirmações. No cotidiano as pessoas estão convencidas que as Escrituras Sagradas estão se cumprindo, e que está chegando a hora do Juízo Final. No século passado havia uma música cantada por Tião Carreiro e Pardinho (composição do Tião Carreiro e Lourival dos Santos) que falava do fim dos tempos: “A coisa tá feia, a coisa tá feia, quem não for filho de Deus tá na unha do capeta”. O que estamos vendo no cotidiano é a materialização destes versos.
No século passado, de vez em quando aparecia algum lunático religioso prevendo o fim do mundo, e muita gente acreditava. A virada do século 20 para o século 21, por conta de uma interpretação equivocada das Escrituras Sagradas, que afirmava que o mundo chegaria há mil anos, mas de dois mil não passaria. Essa afirmação causou um pânico em boa parte da humanidade.Essa passagem de ano foi tensa, muita gente ficou tão apreensiva, que esqueceu de comemorar a passagem do ano. Sempre há um fundo religioso.
Afirmar que vivemos tempos piores do que no passado é desconhecer a história ou ter passado pela vida e não ter vivido. O preconceito racial era escancarado, as mulheres eram propriedade de seus maridos, os assassinatos de mulheres pelos homens era tolerado, e quando algum homem chegava as barras dos tribunais, eram absolvidos com o argumento tacanho da legitima defesa da honra, lei que só foi extinta em 2023. A expectativa de vida nos anos 1970 era 56,7 anos, em 2025 atingimos 76,6 anos, a mortalidade infantil era de cerca 80 por mil nascidos vivos, em 2025 é de 3,8 por 1000. O saneamento básico melhorou, apesar de estarmos longe do ideal. A criação do SUS, que apesar do boicote dos extremistas é o melhor sistema de saúde do mundo, que ajudou a elevar a expectativa de vida. Entretanto, ao invés de avançarmos para sermos realmente uma Nação, a partir dos nos 2000 começamos a retroceder miseravelmente.
Os seres humanos aceitam com facilidade notícias de tragédias e notícias falsas, parece que o celebro humano sente prazer na desgraça. Querer voltar ao passado onde o fundamentalismo religioso ditava as regras é inconcebível. No passado a educação formal era usada para despertar nas crianças e adolescente o sentido de Pátria. O poema A Pátria, de Olavo Bilac era usado como um farol para iluminar as novas gerações, e manter o pobre no seu lugar. “Ama com fé e orgulho, a terra onde nasceste! Criança! Não verás nenhum País com este! Olha que céu! que mar! que rios! que florestas, A natureza aqui perpetualmente em festa…”. Quando a meninada lia estes versos ficavam em êxtase, e mesmo vivendo uma vida de sofrimentos, sentiam orgulho de ser brasileiro.
A formação histórica do povo brasileiro foi calcada na escravidão, e isso produz seus efeitos até os dias de hoje. O ódio desta ”elite” entreguista contra o povo pobre é abissal. O clima artificial de catástrofe criado pela extrema direita, dizendo que o Brasil está a beira do abismo é coisa de quita coluna. Desde a promulgação da Constituição cidadã de 1988, essa gente de “bem” vem tramando para acabar com os direitos sociais explícito na Carta Magna, tramam sorrateiramente para acabar com o financiamento público da educação, saúde e proteção social. Como bons traidores da Pátria querem imitar as políticas sociais do Tio Sam; onde tudo é pago.
Essa gente extremista vota contra qualquer política social que beneficie os pobres, a covardia contra o pobre é descomunal. A mentira é a principal arma que a extrema direita usa contra o pobre. Alguns empresários entram nesta onda, e afirmam que o Bolsa Família prejudica a contratação de empregados, pois eles preferem receber o benefício, do que trabalhar- quanta cara de madeira. Entretanto, no século 21, aquele sentimento de Pátria esvaiu-se, e o pensamento da “elite” brasileira, que sempre foi entreguista imiscuiu-se pela classe média e contaminou parte do proletariado. A palavra da moda é a polarização, uma polarização que está dividindo o povo brasileiro. No entanto, para haver uma polarização é preciso que haja um choque entre dois extremos, e pelo visto não é o que está acontecendo, pois de um lado temos a extrema direita, e em oposição não vemos a extrema esquerda, no máximo a centro direita e os progressistas, portanto, é uma polarização fabricada.
* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

