Tribuna Ribeirão
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As comidinhas do Poetinha

Antonio Carlos A. Gama *
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O título acima, no diminutivo, faz jus ao modo carinhoso com que Vinícius de Moraes tratava amigos, namoradas, pessoas e coisas em geral.

Todavia, não se aplica a ele no tocante às comidas que amava. Longe de ser minimalista ao comer e cozinhar (sim, ele cozinhava, e bem), Vinícius estava muito mais para glutão, devorador de refeições pantagruélicas.

Segundo os irmãos, o Vinicius era de todos o que mais apreciava os sabores de pratos como vatapá, pudins e lombinhos, que comia na casa de sua mãe e da avó.

Na sua célebre “Para Viver um Grande Amor”, a certa altura o Poetinha pontifica:

Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas

Comidinhas para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?

Durante um dos seus tantos shows, Vinícius não resistiu e exclamou romanticamente: “Ah, a melhor coisa do mundo é comer um papo de anjo ao lado da mulher amada!”

Rubem Braga, que estava na plateia, conhecido como “Velho Urso”por seu humor cáustico, irônico e ranzinza, rompeu o silêncio para resmungar: “Comer papo de anjo, ao lado da mulher amada, a essa altura da vida… É muita calhordice!” Eles eram grandes amigos e se alfinetavam mutuamente, como forma de carinho.

Em se tratando de bebidas, é sabido da predileção do Poetinha pelo “cachorro engarrafado”, como chamava o amado uísque. Mas, durante o dia dedicava-se ao gim tônica, que, imerso na banheira, tomava em taças enormes.

Em outra crônica, intitulada “Meu Deus, não seja já”, Vinicius de Moraes lista os lugares para onde gostaria de voltar, no Rio de Janeiro, antes de morrer. Dentre os quais, o Café Vermelhinho e, nos arredores dele, também no Centro, bares como o Amarelinho, em cujas mesas se encontravam frequentemente Vinicius de Moraes, Lucio Costa, Portinari, Oscar Niemeyer, Rubem Braga, Aracy de Almeida, o pintor e arquiteto Carlos Leão.

O Villarino foi palco do primeiro encontro do Poetinha com o futuro parceiro e amigo Tom Jobim, apresentados por Lúcio Rangel. Vinícius estava em busca de um compositor para musicar a peça “Orfeu da Conceição”. O próprio Tom contava que, estando muito pobrinho à época, perguntou a Vinícius se “tinha um dinheiro nisso”, o que levou Lúcio Rangel a lhe dar a maior bronca quando o Poetinha se retirou.

No regresso ao Brasil, depois de permanecer cinco anos nos EUA como diplomata, o roteiro boêmio de Vinícius muda para Zona Sul. No Beco das Garrafas, em Copacabana, nascem os primeiros acordes da parceria com Baden Powell e o surgimento da bossa nova. Contam os frequentadores do antigo corredor de bares e casas noturnas da Rua Duvivier que o local recebeu esse nome pelo pianista Sergio Mendes, após as garrafadas lançadas pelos moradores dos prédios vizinhos, incomodados pelo barulho.

Quem quiser se aprofundar nas receitas de Vinícius, pode se deliciar com o livro “Pois Sou Um Bom Cozinheiro”, escrito pelo Poetinha, organizado por Daniela Narciso e Edith Gonçalves e editado pela Companhia das Letras.  A obra reúne receitas, histórias de bares e restaurantes que Vinícius frequentava e depoimentos que mostram como ele “refazia sua vida através da comida”.

* Promotor de Justiça, aposentado, professor de Direito, advogado e escritor

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