O crescimento do setor de tecnologia no Brasil expõe uma contradição: faltam profissionais qualificados, mas milhões de jovens seguem sem acesso real ao mercado. O estudo “Escuta Jovem: Juventudes, Trabalho e Tecnologia”, desenvolvido pela Brasscom e pelo Instituto PROA, mostra que 59% dos jovens têm interesse em atuar na área e 89% já buscaram qualificação profissional. Ainda assim, 54% afirmam que a principal barreira é conseguir uma entrevista de emprego.
O problema vai além da capacitação técnica. O setor de TIC movimentou R$ 393,3 bilhões em 2024, representando 3,3% do PIB brasileiro, além de oferecer salários superiores à média nacional. Mesmo assim, o ingresso continua limitado por exigência de experiência prévia, processos seletivos excludentes e desigualdades sociais históricas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) já apontam que jovens de baixa renda enfrentam maiores dificuldades de inserção no mercado formal.
A pesquisa também derruba o discurso de falta de interesse da juventude. Segundo o levantamento, 69% vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos e muitos dependem apenas do celular para estudar e participar de processos seletivos. Em um setor cada vez mais digitalizado, a exclusão tecnológica se transforma em exclusão profissional.
Outro dado preocupante envolve a saúde mental. Para 71% dos entrevistados, acolhimento e respeito são fatores decisivos para permanecer em um emprego. O mercado exige desempenho elevado de jovens muitas vezes marcados por ansiedade, instabilidade financeira e falta de suporte emocional.
O Brasil vive um paradoxo: um setor em expansão acelerada convivendo com uma juventude interessada, mas sem portas efetivamente abertas. O desafio já não é apenas formar profissionais, mas garantir acesso, permanência e inclusão. Sem rever modelos de recrutamento e oportunidades, o país corre o risco de desperdiçar justamente a geração que poderia impulsionar sua transformação digital.

