Por Hugo Luque
No futebol moderno, muitas engrenagens se mexem para que a máquina possa operar da melhor maneira. O jogo começa muito antes do apito do árbitro, em salas ocupadas por computadores, onde profissionais transformam lances e estatísticas em informações extremamente valiosas para a comissão técnica e os jogadores. Atento às tendências atuais do esporte, o Botafogo tem um departamento apenas voltado para a análise de desempenho e mercado, gerenciada por Caio Felipe.
Apesar da pouca idade, o profissional de 26 anos já carrega consigo muita experiência na profissão e passagens por três clubes tradicionais do futebol brasileiro. Para chegar tão longe ainda cedo, o recifense teve de iniciar sua trajetória de forma precoce, sempre com a curiosidade tática como combustível. Ele explica que a caminhada profissional teve início na maioridade, mas recorda que a paixão vem de antes, quando o passatempo era projetar o “campinho” em cadernos.
“Minha trajetória iniciou por volta de 2019. Desde sempre, gostei da parte de análise. Na adolescência, montava times no caderno e montava formações táticas. A partir disso, fui tomando gosto por essa parte de analisar os jogos. Tomei esse gosto e, quando iniciei a vida adulta, por volta dos 18 ou 19 anos, procurei entrar na área”, conta.
O primeiro passo foi no futebol feminino, no Lions, de Recife (PE). Após essa experiência, ele migrou para o Santa Cruz, onde passou pelas categorias de base até alcançar o profissional, em 2021. Em maio do ano seguinte, Caio assumiu a análise de mercado no Sport, onde ficou até o final do ano passado, antes de aceitar o convite do Pantera. Sua preparação acompanha a evolução da carreira: além de cursar Ciência dos Dados na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), ele possui as licenças A e Pro de análise de desempenho da CBF Academy.
“Tenho formação na CBF Academy, licença A e licença Pro de análise de desempenho, e tenho o curso de análise de mercado. Tenho algumas outras formações dentro da área de desempenho e mercado, e de scout, assim como da parte de ciência de dados, que é minha formação atual, na UFMS”, detalha.
Por trás das cortinas
No show do futebol, Caio atua nos bastidores, e tem uma importância poucas vezes notada por aqueles que ocupam as arquibancadas do Estádio Santa Cruz/Arena Nicnet para apoiar o Tricolor. Sua função exige um equilíbrio entre gestão e refino na análise. É a fundação que permite o time entrar em campo e ter um bom desempenho, como foi na goleada por 4 a 0 sobre o Fortaleza, no último fim de semana, pela primeira rodada da Série B do Campeonato Brasileiro.

“No dia a dia, boa parte do tempo é gasto com tarefas mais invisíveis, como organizar o banco de dados, padronizar os critérios de avaliações, cruzar informações de diferentes fontes e manter relatórios atualizados. Hoje aplicamos, na fase de protótipo, ferramentas para a melhor organização dos bancos de dados, com predição e afins. É aplicar os dados para gerenciar melhor e ter uma melhor assertividade”, descreve.
Atualmente, Caio foca na gerência de mercado e realiza o cruzamento de dados para comparar atletas. Ele também é o responsável pelo primeiro filtro. “Faço contato inicial com o agente do atleta para saber se ele tem interesse, se tem viabilidade e se consegue se encaixar dentro do que o Botafogo procura hoje. Se a resposta for positiva, encaminho essas informações para a diretoria seguir com a parte mais operacional do negócio.”
Para sustentar isso, o clube utiliza um ecossistema digital que integra plataformas com uma camada própria de inteligência. “A base de dados do clube envolve uma planilha no Google Sheets. A partir dela, temos uma plataforma na linguagem de leitura e processamento de dados, puxando dados do WyScout (plataforma paga de análise futebolística). Dali, desenvolvemos um site, uma plataforma de scout do clube com todos esses dados de atletas das principais ligas que buscamos, além dos brasileiros”, revela.
Também são utilizados sites gratuitos e mais populares para coletar estatísticas de campo e informações contratuais de alvos do Botafogo no mercado. Assim, o Pantera agrega a segurança da ciência ao improviso do esporte mais popular. “Nós buscamos ter uma plataforma mais automatizada a partir dessa construção com algoritmos e códigos. Estamos no processo disso para melhorar a tomada de decisão”, diz.
Nuances e porta de entrada da profissão
O gol de Hygor – que elogiou o trabalho dos analistas durante a última semana –, o passe de Rafael Gava, a movimentação de Patrick Brey e a marcação certeira de Ericson. Todos esses são os passos finais de um processo que começa muito antes. Assim como nas partidas de futebol dos dias atuais, a evolução como profissional da análise de desempenho e mercado envolve muita preparação.
Caio Felipe acredita que, embora ex-jogadores tenham a habilidade de acelerar a compreensão neste ramo, ter entrado em campo não é requisito obrigatório. Para ele, as valências fundamentais são leitura de jogo e comunicação. “A vivência como atleta é um diferencial, pode ser algo a mais, mas não vejo como requisito. (…) As habilidades principais que um analista precisa são a leitura de jogo e a comunicação, porque um dado solto não é informação. A partir do momento que essa informação vira vantagem competitiva, se torna algo a mais. Isso é o mais importante: transformar em informação e se comunicar bem com a comissão técnica. A partir daí que se diferencia um empate de uma vitória”, argumenta.
São muitos termos, como gatilho de pressão, profundidade, amplitude e balanço. A complexidade da área contrasta com a curiosa simplicidade que serve como porta de entras de muitos: os games. Profissionais de renome, como o técnico do Mirassol, Rafael Guanaes, e até mesmo treinadores internacionais já ressaltaram a importância do título “Football Manager” na construção de suas carreiras. Caio destaca que o jogo possui um banco de dados capaz de prever o potencial de atletas reais.
“O ‘Football Manager’ eu acredito que quase todo analista já jogou e já sonhou estando dentro do jogo, porque tem um banco de dados tão robusto que aparecem até os profissionais da área na Série C e Série D. Há uma leitura de potencial de atletas, mesmo sendo um game, artificial, que consegue prever muito bem o futuro. São diversos casos de atletas que tinham potencial no game e viraram grandes jogadores”, explica o profissional do Botafogo, que cita o exemplo do ex-técnico André Villas-Boas.
Mercado em alta
Acontece que nem todo mundo tem a sorte do lusitano de encontrar o técnico do Porto, seu time do coração, no elevador do prédio onde mora. Fanático por futebol, o atual presidente do clube português utilizou o “Football Manager” para entregar ao comandante da equipe na época um relatório. Com isso, entrou ainda adolescente no esporte, ainda que fora de campo – e nunca mais saiu.
Como nem todo mundo é Villas-Boas, Caio Felipe destaca a importância de participar de cursos e buscar sempre ampliar a rede de contatos, o popular “networking”. O analista do Botafogo observa que suas duas principais áreas de atuação cresceram nos últimos anos. Após a Copa do Mundo de 2014, a análise de desempenho ficou mais popular. Já durante a pandemia, foi a vez dos “olheiros” do mercado.

“Um conselho que eu daria a quem está começando é produzir conhecimento e análises, além de buscar esse ‘networking’. É buscar aprender com quem está na área e buscar construir sem depreciar quem já está dentro da indústria, respeitando quem já trabalha no futebol. Tem de fazer análises realmente qualitativas”, aconselha o profissional, que detalha como definiu seu caminho.
“O que me ajudou muito foi buscar referências no LinkedIn (rede social), buscar referências na área, os padrões que essas pessoas tinham. Assim, predefini esse caminho para saber mais ou menos as pessoas mais capacitadas da área e por onde elas foram.”
Apesar de já estar inserido no esporte, Caio não pensa em chegar à beirada do campo para atuar como técnico. Pelo contrário: ele destaca que, atualmente, a tendência é encontrar cada vez mais pessoas com o sonho de ficar justamente atrás do grande palco, seja no posto de especialista de mercado, que atua mais com a diretoria e tem noção de questões como folha salarial do elenco e mapeamento de atletas, ou na área tática, cujos objetivos são auxiliar o comandante, desenvolver atletas e estudar os adversários.
“Não tenho essa pretensão de ser treinador. A análise de desempenho é uma porta de entrada, mas não é minha pretensão hoje. Atualmente, quero estar mais na área de gestão, atuando na parte de diretoria. O perfil dos novos profissionais é muito mais voltado a se manter na área e fazer carreira, para, no futuro, ser como um auxiliar do treinador”, encerra.

