Rui Flávio Chúfalo Guião *
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O historiador paulistano Paulo Rezzutti – também arquiteto, escritor e youtuber – que já nos deu várias obras sobre os membros da família real portuguesa e brasileira, acaba de lançar “D. João VI: a História Não Contada”, livro que pretende traçar a verdadeira personalidade e obra do rei português, que teve a ousadia de transferir a corte da metrópole para a colônia brasileira, tornando-se o primeiro soberano a reinar a partir do distante Novo Mundo Americano.
A figura de D. João VI é tratada como uma caricatura pela história : baixinho, gordinho, comedor de frangos, indeciso em seus atos, enganado pelo esposa D. Carlota Joaquina, com medo de trovoadas e cheio de superstições religiosas.
D. João,aos 19 anos, tornou-se herdeiro do trono português devido à morte de seu irmão mais velho e, com 25 assumiu a regência do reino, em virtude dos problemas mentais de sua mãe, a rainha D. Maria I. Com a morte desta, foi coroado Rei de Portugal.
As monarquias absolutistas da Europa sentiam os ventos do liberalismo trazidos pela Revolução Francesa e aplicados por Napoleão Bonaparte em sua faina de liquidar estas monarquias, colocando seus parentes nos tronos.
Portugal, que vivia dias tumultuados, havia se baseado numa política econômica de explorar as riquezas de suas imensas colônias e quando estas riquezas começaram a minguar, o país mergulhou numa grande crise. Escorava-se no protetorado da Inglaterra, a única força capaz de impedir o avanço de Napoleão.
Em 1807, o país sofria a possibilidade de uma invasão napoleônica. D. João, numa atitude corajosa, decidiu transferir a sede do reino para o Brasil.
Os anos brasileiros foram os melhores da vida do Regente e depois Rei. Longe das pressões francesas e inglesas, promoveu o desenvolvimento da colônia: fundou escolas superiores, abriu os portos às nações amigas, instituiu a Imprensa Régia, criou o Banco do Brasile o Jardim Botânico, acabou com as áreas pantanosas do Rio de Janeiro e introduziu na colônia os hábitos metropolitanos, coma criação do Reino Unido de Portugal,Brasil e Algarve.
Na sua vida particular, entretanto, sofria com as atitudes de D. Carlota Joaquina, filha do rei da Espanha, que não gostava de obedecer às ordens de D. João e alimentava o sonho de ser nomeada regente das colônias espanholas na América.
Apesar das derrotas de Napoleão e o retorno das monarquias absolutas, as ideias liberais da Revolução Francesa continuavam a fermentar na Europa, Portugal inclusive, o que culminou com a Revolução Liberal do Porto, em 1820. Aboliam-se os Estados Gerais ( nobreza, clero e povo ), criando-se uma Assembleia Nacional que chancela o poder emanando do povo e não do soberano.
As agitações liberais se estendem para a nova sede do Reino e D. João se vê obrigado a jurar obediência à constituição que se fazia em Lisboa, abrindo mão de seu poder absoluto e culminando com a sua volta à metrópole, onde sua vida passa a ser um inferno: conspirações de seu filho D. Miguel e de sua esposa D. Carlota Joaquina; pressões das políticas francesa e inglesa; desejo dos monarquistas absolutos para o retorno à monarquia anterior.
Com seu jeito procrastinador de decisões, sua faceta humanista que tudo perdoava, D. João não conseguiu eliminar estes perigos. Expulsou D. Carlota Joaquina de Portugal e exilou seu filho Miguel para a França, tudo em vão. Continuavam os movimentos, ora pretendendo que D. Miguel assumisse o trono, ora propondo depor o rei, assumindo como regente D. Carlota Joaquina.
Apesar de suas indecisões, D. João conseguiu preservar a Casa de Bragança como reinante em Portugal. Morreu em 1826, aos 59 anos,muitos dizendo que foi envenenado.
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

