Tribuna Ribeirão
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Sonhos, vontades e devaneios

Edwaldo Arantes *
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A qualquer momento ainda retorno às minhas serras, ao lado somente dos “olhos verdes”, adquirir um pedacinho de chão na beira da lagoa, um rancho bem pequenino, fogão a lenha, um quartinho discreto, varanda para olhar de mãos dadas ao longe, um rádio e um cachorro sonolento, esticado na soleira.

Armar varas na beira do lago, buscando uma fritada de lambaris, ficar ouvindo o silêncio, esperando o tempo passar, sem pressa.

Assistirmos pasmos, ao entardecer, sabiás entoando melodias em tristes gorjeios, aconchegando-se entre as folhagens dos  jequitibás, mugidos ao longe, um andarilho errante vagando pela picada aberta.

Acordar pela madrugada, ferver a chaleira, passar o café, olhar para as estrelas ainda despertas, jogar um naco de carne na chapa, ficar esperando o dia amanhecer e o luar partir.

Ao brotar um sol preguiçoso e frio, cuidar de uma pequena horta, couves, rabanetes, tomates, “ora-pro-nóbis”, rúculas, alecrins, manjericões, malaguetas, também, margaridas, lavandas, azaleias, lírios e um intenso perfume noturno, exalando da dama-da-noite.

Desativar o celular, pendurar as gravatas “Hermès”, esquecer no fundo das gavetas os pares de meias “Ralph Lauren”, despir-se dos ternos ”Armani”, e, descalçar os bicos finos italianos.

Vez ou outra, rumar ao armazém do Nico, tomar um trago, jogar um taco, derrubar conversa fora falando assuntos diversos e esparsos, sem importâncias, às vezes, arriscar uma cátedra esquecida e perdida no tempo.

Retornar com banha, carne-seca, paio, lombo, costela, pó de café, paçoca e rapadura para adoçar.

Nas tardes modorrentas, esticar a rede, abrir, Pessoa, Drummond, Pound, Neruda, Rosa, fechar as capas, simplesmente olhar o céu azul de manto celestial, apenas ouvindo o canto do sabiá-laranjeira, bicando a fruta do dia.

Ao pôr do sol, observar o astro-rei escondendo-se entre os arvoredos, disfarçando-se de lua, sentir o calafrio do vento da noite surgindo, agasalhar-se em volta das labaredas crepitantes.

Descascar e cortar arquitetonicamente, batatas, cebolas, cenouras, mergulhá-las na velha caçarola, sobre a trempe fumegante, aquecer a frigideira, depositar a banha, a costelinha suando agarrada ao paio, abraçada ao alho-poró.

Assentar um copo da Salinas, erguendo chamas, brotando aromas, deixando apenas o leve cheiro da cana verdinha ainda no pé, perdendo-se de vista, fumaças em filas, subindo, tentando escapar pelo zinco, atingindo o firmamento.

Uma pimenta malagueta verde, amassada, misturada à farinha de mandioca e os legumes ainda fumegantes, sobre a travessa de barro.

Abrir um tinto seco português, sorver meia caneca de alumínio, alimentar-se com calma, agradecendo o sustento destinado aos homens.

Em posse do tinto, dirigir-se até a cadeira de balanço surrada, ouvir seu melancólico ranger, ficar pensando sobre o passado, refletindo as realizações e decepções, respirar profundamente, atestando a sensatez de existir e ser.

O rádio já clamou pelo “Angelus”comunicando aos fiéis fervorosos, absortos e suas crenças, o momento da “Anunciação”, pelo Arcanjo Gabriel.

A noite em sua quietude invade cada minuto, o silêncio é cortado apenas pelo velho “Cuco” e o galo desafinado, cantando fora de hora.

Vaga-lumes piscam, mariposas parecem bêbadas feito ébrios ao redor das mesas, dançando de encontro às luzes, uma fraca lâmpada incandescente, insiste, sem sucesso, clarear a penumbra.

Suspirar só e feliz, convicto de nunca ter compactuado com calhordas, facínoras, genocidas, déspotas, golpistas, usurpadores, agressores e tiranos, destruidores da democracia e da liberdade, inimigos mortais dos sonhos.

“Noite morta. Junto ao poste de iluminação, os sapos engolem mosquitos. Ninguém passa na estrada, nem um bêbado. No entanto, há seguramente por ela uma procissão de sombras. Sombras de todos os que passaram, os que ainda vivem e os que já morreram. O Córrego chora a voz da noite…(Não desta noite, mas de outra maior.)” – Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho.

* Agente cultural

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