Com cinco mortes de motociclistas nos dois primeiros meses do ano, números apresentam redução, mas ainda preocupam
Por: Adalberto Luque
A pulsação do trânsito nas vias públicas em Ribeirão Preto, polo regional que concentra um fluxo intenso de veículos, mostra dados estatísticos preocupantes nos últimos anos. Embora os números parciais do Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito do Estado de São Paulo (Infosiga-SP) indiquem uma retração na letalidade no primeiro bimestre de 2026, a hegemonia dos motociclistas no topo da lista de vítimas em acidentes fatais permanece inalterada. Mas motociclistas não são os únicos a perderem suas vidas no trânsito.
Este padrão de vulnerabilidade desafia políticas públicas e causa danos severos à economia e à estrutura social das famílias. Ao observarmos os registros de janeiro e fevereiro de 2026, de acordo com o Infosiga-SP, nota-se que dez pessoas perderam a vida no trânsito do município. O número representa uma queda de 44,4% em relação ao mesmo período de 2025, quando 18 óbitos foram contabilizados no primeiro bimestre.
Perfil das Vítimas
No recorte atual de 2026, a distribuição das mortes foi igual entre os dois meses, com cinco casos em cada. Entretanto, o que salta aos olhos é a constância do perfil das vítimas: das dez mortes registradas este ano, 50% envolveram motocicletas, vitimando quatro homens e uma mulher.
Os outros 50% das ocorrências fatais foram atropelamentos, vitimando igualmente quatro homens e uma mulher. Isso coloca pedestres e motociclistas em um empate técnico de risco absoluto neste início de ano, o que, para especialistas de trânsito, mostram a vulnerabilidade destes usuários de trânsito, uma vez que não estão protegidos pela estrutura de automóveis, caminhões e ônibus, por exemplo.
Para compreender o tamanho do problema, é necessário olhar para o retrocesso estatístico de 2024, ano que se consolidou como o mais letal do período recente em Ribeirão Preto.
Naquele ano, 108 pessoas morreram no trânsito, das quais 62 estavam sobre duas rodas. Isso significa que, em 2024, os acidentes com motos responderam por 57,4% de todas as mortes na cidade. O perfil de gênero já demonstrava uma disparidade acentuada, com 52 homens e 10 mulheres vitimados em motocicletas.
No ano seguinte, em 2025, houve uma redução no total geral de mortes para 87 vítimas, de acordo com registros do Infosiga-SP. Contudo, a predominância dos motociclistas persistiu com 46 óbitos, o que representa 52,8% do total. O gênero masculino seguiu como o principal alvo, com 38 mortes contra oito femininas naquela categoria de veículo.

(Foto: Alfredo Risk)
A análise da gravidade dos acidentes também preocupa quando comparada a natureza dos sinistros. Em 2026, o índice de letalidade — a relação entre o número total de acidentes e o número de mortes — ficou em 3,7%. Esse percentual é inferior aos 4,2% registrados em 2025, mas superior aos 3,2% de 2024, considerado o ano mais letal dos últimos tempos em Ribeirão Preto.
Os números sugerem que, embora o volume total de colisões possa oscilar, a energia do impacto nas ocorrências envolvendo motocicletas tende a ser desproporcionalmente fatal. Em 2026, as motos estiveram envolvidas em 47% de todos os 246 sinistros registrados, superando os automóveis, que apareceram em 44% das ocorrências.
Fragilidade sobre rodas
No ano de 2025, essa balança era quase equilibrada, com 44,8% de envolvimento de motos e 45,7% de carros. Já em 2024, o equilíbrio foi exato: 42,2% para cada categoria dentro de um universo de 3.186 acidentes registrados pelo Infosiga-SP.
Essa paridade no número de colisões não se traduz em paridade de sobrevivência. Enquanto em 2026 nenhum ocupante de automóvel morreu nos dois primeiros meses, cinco motociclistas perderam a vida. Essa discrepância foi igualmente gritante em 2025, quando morreram 46 motociclistas contra apenas seis ocupantes de carros.
Tais dados comprovam que o motociclista absorve integralmente a força do impacto. Em colisões que, para um motorista de carro, poderiam resultar apenas em danos materiais, para quem está na moto o desfecho costuma ser a interrupção da vida ou sequelas permanentes. Isso também é observado com acidentes envolvendo ciclistas ou em atropelamentos, onde o pedestre, em boa parte das vezes, acaba sendo vítima fatal.

(Foto: Alfredo Risk)
A localização desses eventos fatais também sofreu uma migração estatística. Em 2026, a totalidade das mortes (100%) ocorreu no perímetro urbano de Ribeirão Preto. Em anos anteriores, as rodovias que circundam a cidade tinham uma participação maior na letalidade.
Em 2025, as vias urbanas concentraram 64,4% dos óbitos, enquanto as rodovias responderam por 23%. Em 2024, as rodovias foram palco de 28,7% das mortes, contra 57,4% nas ruas da cidade. Essa concentração urbana atual reforça a necessidade de intensificar a conscientização no trânsito da cidade, sobretudo em relação ao respeito à sinalização e limites de velocidades, sobretudo dentro dos bairros.
Peso econômico
Para além da tragédia humana, os dados trazem uma realidade econômica sombria detalhada por fontes como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Ministério dos Transportes. Estima-se que os acidentes de trânsito custem ao Brasil aproximadamente R$ 50 bilhões anualmente, absorvendo recursos públicos valiosos.
Esse valor engloba desde o resgate especializado pelo (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) até cirurgias ortopédicas e neurológicas de alta complexidade. Segundo o Ministério da Saúde, o tratamento de um acidentado de trânsito é significativamente mais caro devido à necessidade de múltiplas intervenções, próteses e reabilitação prolongada.
A quebra na cadeia econômica é o próximo estágio desse impacto. Como a maioria das vítimas são homens em idade produtiva, o afastamento do trabalho gera um vácuo na força de trabalho local e uma pressão imediata sobre o sistema previdenciário e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

(Foto: Alfredo Risk)
Para muitas famílias em Ribeirão Preto e mesmo em todo o Brasil, o acidente significa a interrupção abrupta da principal fonte de renda. O processo para obtenção de auxílio-doença ou pensão por morte pode ser moroso, empurrando núcleos familiares inteiros para situações de vulnerabilidade social e dependência de assistência. Sem contar o fato de que, para trabalhadores da economia informal – e muitos acabam trabalhando com motocicleta ou se locomovendo através delas – pode não haver nenhum aporte financeiro oficial, o que aumenta mais ainda o problema social.
Há também o custo da “perda de produção futura”. Quando um jovem condutor morre, a economia deixa de contabilizar décadas de trabalho e consumo. É uma conta invisível que afeta o PIB nacional, transformando o que seria potencial produtivo em um rastro de gastos hospitalares e luto.
Muito o que fazer
Os números de 2026, apesar de mostrarem uma redução inicial na quantidade de óbitos, não autorizam o relaxamento. A liderança das motocicletas neste ranking, por anos sucessivos, indica que o trânsito da cidade continua a punir aqueles que estão mais expostos.
A divulgação dos dados do Infosiga-SP apenas confirma uma tendência histórica e dolorosa. A colisão que amassa o metal do carro é, com frequência assustadora, a mesma que encerra a trajetória de quem pilota uma motocicleta, ou por quem atravessa uma rua, deixando um prejuízo que ultrapassa a constatação de mais um acidente de trânsito.
Aumento da letalidade nas rodovias
As duas concessionárias de rodovias que operam na região de Ribeirão Preto expressam preocupação nos acidentes envolvendo motos. Ambas desenvolveram estudos e analisam os dados obtidos.
A concessionária Arteris ViaPaulista registrou, em 2025, queda de 3% no total de ocorrências e de 7% nas mortes em rodovias sob sua gestão, na comparação com 2024. Apesar da redução geral, os acidentes envolvendo motociclistas avançaram 5% e tiveram aumento de 33% nos óbitos e 32% nos feridos graves.

(Fotos: Divulgação)
Do total de fatalidades, 39% envolveram motos: 24 de 63 casos. Levantamento interno aponta que 80% dos acidentes ocorreram com veículos de até 160 cilindradas, mais comuns em áreas urbanas e mais vulneráveis ao tráfego intenso e à presença de veículos pesados nas rodovias. Entre os fatores associados estão excesso de velocidade, distração, manobras arriscadas e falta de manutenção.
O crescimento da frota acompanha tendência nacional. Dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) indicam 171.508 motocicletas emplacadas em fevereiro, acima do mesmo período anterior.
Entre os acidentes com vítimas, o tombamento foi o mais frequente em 2025, com baixa letalidade (0,5%), mas alto número de feridos. Já colisões traseiras e choques registraram taxa de 7% de fatalidade. As mortes atingiram majoritariamente homens (85%), sobretudo de 21 a 30 anos.
“Nossas ações e campanhas reforçam essa percepção de risco entre os motociclistas, para que acessem a rodovia de forma segura, evitem o corredor, utilizem bons e adequados equipamentos de proteção individual e mantenham os pneus em boas condições”, afirmou Ana Gonçalves Caetano, gerente de Operações da Arteris ViaPaulista.
A Arteris ViaPaulista enumera uma lista importante para quem circula de moto pelas rodovias: redobre a atenção ao excesso de velocidade; evite trafegar pelo corretor e opte pemas marginais em trechos urbanos, para reduzir a exposição ao tráfego intenso, especialmente no caso de motos de baixa cilindrada.
A Entrevias, que também atua na região, registrou em 2025 53 acidentes durante o ano todo. Deste número, 18 foram com motocicletas. De acordo com a concessionária, 34% das vítimas fatais registradas nas rodovias sob sua responsabilidade foram motociclistas e garupas.
“Hoje, o motociclista é a principal vítima em acidentes fatais no nosso trecho. Diferentemente de quem está em um carro, ele está muito mais exposto, o que aumenta significativamente tanto o risco quanto a gravidade das ocorrências. Por isso, é fundamental respeitar as leis de trânsito, utilizar corretamente todos os itens de segurança, manter a motocicleta em boas condições e investir em elementos refletivos, tanto na moto quanto no capacete”, diz Ariel Garavine, Especialista em Segurança Viária da Entrevias.

