Tribuna Ribeirão
Artigos

Cidade das Sete Colinas

Edwaldo Arantes *
[email protected]

Na gelada noite, embarquei em Madri rumo a Lisboa, minha primeira indagação à bonita comissária do trem, foi sobre a localização do restaurante, entre queijos, vinhos tintos secos e água, passei todo o trajeto absolutamente só, gosto de ficar bebericando, pensando, mantendo longos colóquios comigo.

Ainda pela madrugada, alcançando a cidade, rumei para um simpático hotel no bairro Chiado, localizado entre o Bairro Alto e a Baixa Pombalina, integrado na freguesia de Santa Maria Maior, famosa pelas suas ladeiras, fazendo-me lembrar, Ouro Preto.

Ainda inebriado pelo torpor das taças servidas e sorvidas, busquei um pouco de descanso, ao despertar, decidido a passear sem rumos, assim que deixei a estalagem, o vi, em uma mesa, em frente a “Brasileira do Chiado”, abafando a emoção, o cumprimentei com uma discreta deferência, embora, sentado em característica pose em bronze, não parece ter-me notado.

Descendo a Garrett, a “Livraria Bertrand”, 1732, já a havia visto em fotos, filmes e sonhos, adentrar seu espaço físico foi o segundo maior presente, logo no primeiro dia.

Passava meus dias flanando sob o aroma dos vinhos, pataniscas de bacalhau, bolinhos com queijo, Serra da Estrela, bruschettas de  sardinhas, avencas, suaves azulejos, fados, chafarizes, fontes, vielas, lugarejos, toda a áurea envolta na magia de cada lugar.

Os fados em Alfama, Avenida da Liberdade, Bairro Alto, Torre de Belém, Sé, Miradouro de São Pedro de Alcântara, Fundação José Saramago, Castelo de São Jorge, Aquário Vasco da Gama e os eternos Pastéis de Belém.

Vale a pena fazer a travessia em um ferry de casco único, apelidado “cacilheiro”, partindo do Terminal Fluvial do Cais do Sodré, até Cacilhas, do outro lado do rio, onde apreciei um Bacalhau à Lagareiro, diversas jarras do meu amigo tinto, autêntico representante do Néctar de Baco.

Este bairro ribeirinho na margem sul do Tejo, presenteia com uma das vistas mais lindas de Lisboa.

Imperdível e lúdico um passeio ao longo do Tejo para apreciar a ponte 25 de Abril ligando ao município de Almada, percorria tudo, ávido e abismado.

Sempre que retornava ao hotel cansado e encantado, deparava-me com ele, sentado impassível em sua elegância contida, olhar absorto sob a aba, mirando o Chiado, cumprimentava-o em uma breve referência, isento de correspondência.

Em uma tarde, encantado, adentrei um “elétrico”, charmoso bonde, dirigindo-me ao bairro de Campo de Ourique, sua antiga residência, hoje, Casa Fernando Pessoa, lotado de suas lembranças.

Gostava de ficar sentado nos lugares que margeiam o Tejo, O Padrão dos Descobrimentos, na margem direita, um monumento emblemático em forma de caravela que homenageia a expansão ultramarina portuguesa.

No derradeiro dia, amargurado, procurei por um “Tasco”, pedi um “Canjirão”, fiquei matutando, os pensamentos confusos, tristonhos pela partida.

A poucos metros uma jovem sentada, olhamo-nos e ficamos naquela cena de descobrimento e deslumbre, seus olhos verdinhos, bastante fechados, que vez em quando se abriam como esmeraldas, a boca de um sorriso em curvas, os lábios talvez nascidos do pincel de Michelangelo, das visões de Leonardo da Vinci, dos versos de Drummond ou da prancheta de Niemeyer.

Seus pés pequeninos, levemente cruzados cobertos por uma sandália simples e sensual, quase escondidos pela saia comprida, com desenhos, inspirados nos vitrais das catedrais, caindo sobre os ombros em movimentos sinuosos, um xale em seda, imitando estampas lusitanas.

Ficamos ali, como quando de mãos dadas, um casal observa um altar, os minutos passando, a admiração e a ansiedade assaltando.

Num repente, em um movimento gracioso e repentino ela se levantou e sorriu, foi o momento inesquecível da vida, o coração disparou e me vi menino, despertando nas manhãs natalinas, não caminhou, apenas flutuou, se afastando em direção ao Tejo.

No avião, sob os efeitos do encantamento, ofuscado pela lembrança, tendo decorado cada segundo, senti que por minutos havia conhecido a formosura, retornando para realidade nua e crua dos meus dias, desprovidos de episódios e importâncias.

* Agente cultural

VEJA TAMBÉM

Desordens menstruais após a vacinação da COVID-19

Redacao 5

Revistando Cony

Redacao 5

Tabela SUS Paulista faz mais e melhor para o SUS

Redacao 5

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com