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Victor Glover, a Lua e a urgência de olhar para a Terra

Foto: Arquivo

André Luiz da Silva *
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Para os céticos que ainda insistem em desacreditar a chegada do homem à Lua e para os admiradores do tema, a NASA segue transmitindo ao vivo, em seu canal no YouTube, a histórica missão Artemis II. É um daqueles raros momentos em que a humanidade volta os olhos para o céu e, por instantes, parece se reconhecer pequena diante da imensidão do universo.

A missão mobiliza a imprensa mundial e, no Brasil, uma frase ganhou enorme repercussão: “um homem, um negro e uma mulher”, disse a jornalista Marina Franceschini, na GloboNews, ao descrever a tripulação. A formulação expõe um traço persistente do racismo estrutural: a naturalização do homem branco como figura universal — apenas “homem” — enquanto o negro e a mulher aparecem como categorias à parte.

Nesse contexto, surge a pergunta: por que Victor Glover está na missão? Seria marketing ou mera composição simbólica? Basta observar sua trajetória para dissipar qualquer dúvida. Comandante da Marinha dos Estados Unidos, piloto de testes, engenheiro e astronauta da NASA, selecionado em 2013, Glover foi o primeiro homem negro a realizar uma missão de longa duração na Estação Espacial Internacional. Com quatro mestrados e mais de 3.000 horas de voo em mais de 40 aeronaves, sua presença é resultado inequívoco de competência, mérito e excelência profissional.

Mas há outra dimensão que torna sua participação ainda mais significativa. Glover é cristão e, pouco antes de cruzar o lado oculto da Lua — quando a comunicação com a Terra desaparece — aproveitou a audiência de milhões de pessoas para transmitir uma mensagem profundamente humana: “À medida que continuamos a desvendar os mistérios do cosmos, gostaria de lembrar um dos mistérios mais importantes da Terra: o amor”.

Em seguida, recordou as palavras de Cristo sobre o maior mandamento: amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo.

Ouvir uma das mais belas mensagens bíblicas em um momento histórico como esse é, sem dúvida, de rara sensibilidade. E a pergunta que ecoa é inevitável: será que essa pregação é capaz de alcançar o coração dos líderes das nações que hoje promovem e sustentam conflitos bélicos, especialmente no delicado cenário do Oriente Médio?

Enquanto nossos olhos permanecem fixos na tela, acompanhando as imagens mais recentes da espaçonave, ou voltados ao céu em busca de algum sinal, em outra parte do mundo, na Ásia Ocidental, outros olhos se enchem de medo diante de uma chuva de mísseis, bombas e drones.

Quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 20 de julho de 1969, pronunciou a célebre frase: “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”. Naquele instante, celebrava-se a vitória da ciência, da tecnologia e da capacidade humana de realizar o extraordinário.

E, de fato, daquele passo até hoje, o homem provou ser capaz de feitos impressionantes. No entanto, no que diz respeito à compreensão, à paz, ao respeito e à dignidade, parece que recuamos centenas de quilômetros.

Com a liberdade poética de um cristão sonhador, é impossível não imaginar Jesus, sentado à direita do Pai, observando o cenário atual e dizendo: Pai, eles estão voltando à Lua, mas continuam não sabendo o que fazem.

Voltando à realidade, o verdadeiro avanço que se espera não está apenas nas estrelas. Está na construção de um mundo em que a presença de um astronauta negro seja algo absolutamente natural e em que os recursos hoje consumidos por arsenais bélicos sejam destinados à cura de doenças, à mitigação dos impactos climáticos, ao amparo das populações vulneráveis e ao respeito à autodeterminação e à soberania dos povos.

Porque talvez a maior conquista da humanidade não seja voltar à Lua, mas finalmente aprender a viver em paz na Terra.

* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

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