Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Basta ver um trabalho bem feito para as pessoas lembrarem do dom. Fulano tem dom para aprender línguas. Beltrano nasceu com dom para falar em público. Sicrano tem dom para desenhar. Curiosamente o dom costuma ser atribuído a atividades cognitivas, e não físicas. Normalmente não se diz que alguém tem o dom para vencer as olimpíadas.
Quando relacionado a esporte, fica mais evidente que o resultado decorre de treino, técnica, planejamento, disciplina. Um nadador profissional exercita-se no mínimo 6 horas por dia em treinos aquáticos e fora da água, aperfeiçoando métodos e habilidades. É fácil perceber que essa rotina restringe a vida social, pois é fundamental dormir cedo e acordar bem. Nesse cenário, os sacrifícios pessoais estão escancarados.
O trabalho do cérebro, no entanto, não se vê a olho nu. Ele só possui registro em exames de neuroimagem, eletroencefalograma e ressonância magnética funcional. Então, como não é usual ver a ginástica mental, atribui-se a um suposto dom tudo o que é resultado de trabalho cognitivo.
Assim, o que se pretendia elogioso, já que o dom é algo especial, passa a ter efeito contrário. O magistério é muitas vezes conectado ao dom: “É uma boa professora porque tem dom.” Daí para a questão financeira é um passo: “Já nasceu com esse dom maravilhoso, esse presente divino, então não precisa ser bem paga.”
Ora, ora. O dom simplesmente ignora toda a profissionalização. A formação do professor envolve conhecimento do assunto na área de atuação, o que significa pesquisa incessante, já que os conteúdos se renovam continuamente. Precisa também saber “passar a matéria”, como dizem os alunos, e aí só com muito Paulo Freire,Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Selma Garrido Pimenta, Antonio Nóvoa,Vygotsky, Piaget, para citar apenas alguns pesquisadores entusiastas da educação.
Preparar aulas, estudar, atualizar-se invadem os fins de semana do professor competente.Hoje se somam a esses requisitos a utilização das ferramentas digitais e a expectativa de que o professor lide com questões distantes da formação geral: casos de ansiedade, depressão e demais transtornos mentais dos alunos.
Para desmerecer o esforço do trabalho bem feito, também se recorre à genética: a pessoa nasceu assim. Claro que a carga genética pode facilitar o caminho inicial, mas ela sofre interferências decisivas dos aspectos psicológicos e dos estímulos do meio ambiente. Dessa forma, a predisposição para determinadas habilidades pode permanecer adormecida senão houver motivação pessoal. Como professora, vi muitos talentos esmorecerem em alunos sem dedicação e também presenciei superações inimagináveis nos esforçados. É sempre escolha. E trabalho. Trabalho. E mais trabalho.
Haruki Murakami, consagrado escritor japonês de projeção mundial, é um exemplo concreto de investimento de tempo e empenho. Ele e a esposa tinham um bar de jazz em Tóquio. Na correria em uma das maiores metrópoles do mundo, a urgência era sobreviver e pagar as dívidas do bar.
Certo dia Murakami foi assistir a um jogo de beisebol no estádio. Estava tomando uma cervejinha quando teve, segundo seu relato, uma espécie de epifania. Do nada, pensou que poderia se tornar escritor. Até então, era tradutor, o que já o colocava no cenário dos livros.
Ao terminar o jogo, foi direto a uma livraria, comprou material e começou a escrever diariamente. Sem tempo e sem recursos sofisticados, começou a escrever à mão, no meio da noite, na mesa da cozinha do pequeno apartamento onde morava com a esposa.
Um ano depois venceu o concurso de uma revista literária. A partir daí, não parou mais, tornou-se escritor famoso e hoje vive da sua produção literária. Escreve diariamente de manhã por 5 ou 6 horas. À tarde lê e ouve música. Também fazem parte da rotina exercícios físicos e corrida.
Nem todos teremos a sorte de uma epifania, mas podemos ficar atentos aos sinais do que nos agrada. Uma faísca de intuição do que gostamos já vale o investimento. O próximo passo é inserir-se no contexto do que você deseja alcançar, buscar estímulos. Trocar ideias com profissionais, ler, estudar, aprender, praticar. Ter disciplina e perseverança. Trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Predisposição genética ajuda, mas não é determinante categórico. Uma pitada de sorte também ajuda, mas ela nem sempre está disponível. O melhor, então, é garantir a parte que nos cabe e que depende somente de nós: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Dom, talento, dádiva, sem trabalho é desperdício. Nada supera a dedicação consistente.
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

