Tribuna Ribeirão
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A orelha mouca

Antonio Carlos A. Gama *
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Quando deu com a orelha em cima da mesinha da sala, não a identificou. Também a orelha não se identificou. As orelhas não são como as bocas, que falam e podem dizer: “Sou Fulano de Tal”.

Aquela orelha apenas escutava. Ele somente conseguiu saber que era uma orelha esquerda, e pensou que, achando-se ali, sem a outra, a orelha devia sentir-se muito solitária. 

“Quem, diabo, trouxe esta orelha para cá?”, ele perguntou a si mesmo. Não podia admitir que ela tivesse vindo para ali com os próprios pés. Porque orelha não tem pés, se bem que se diz “preguei um bofetão bem no pé da orelha dele.”

Depois de refletir uns minutos sobre o mistério daquela orelha, ele a pegou e a colocou num prato. E levou o prato, com ela, para a geladeira, porque não teve receio de que ela pegaria um resfriado, já que estava fria. Além disso, quem pega resfriado é o nariz.

Saiu então para a rua, foi trabalhar e, durante o dia, nas esquinas, diante do balcão de um bar, ao beber um café, no restaurante, em toda parte, passou a observar as orelhas dos amigos e das amigas, dos conhecidos, de uns e outros. 

As delicadas orelhinhas das mulheres, os orelhões dos marmanjos, as orelhas acabanadas, as peludas… Todas tinham certa semelhança, mas também o seu jeito próprio. 

As orelhas são peças anatômicas imóveis. Como os narizes. E tanto como estes, parece que crescem durante toda a vida. Daí que os velhos são sempre orelhudos.

“Que é que você está olhando tanto as minhas orelhas?”,─ perguntavam-lhe, incomodados.

“Não é nada não, me desculpe… Estou fazendo um estudo das orelhas. Elas são muito interessantes. Essa dobrinha, por exemplo, que há em torno delas…”

Consultou um dicionário:“Cada uma das duas conchas dos órgãos de audição, situadas nas partes laterais da cabeça, e pertencentes ao ouvido.”

Os livros também tinham orelhas, na sua capa e sobrecapa. Mas as orelhas dos livros, em vez de escutar, falavam. “De orelha em pé”. Como que elas podiam estar em pé, se não tinham pés? “Torcer as orelhas”. “Estar com a pulga atrás da orelha”.

Ele devia encontrar alguém que não tivesse a orelha esquerda, para resolver aquele mistério da orelha achada em cima da mesinha da sua sala de estar. E talvez não, porque haveria mais de uma pessoa sem uma orelha. Tinha de ser alguém desfalcado de uma das orelhas, e a outra fosse exatamente igual àquela que se achava agora dentro da geladeira.

Alguns dias depois, procurou um médico, seu amigo.

“Encontrei uma orelha em cima da mesinha da sala da minha casa.”

O médico olhou-o, surpreso.

“Que coisa estranha! E que é que você fez com ela?”

“Botei dentro da geladeira.”

“Não foi à Polícia?”

Por que é que eu iria à Polícia? A orelha não me fez nada, não posso acusá-la de nada.

“Pode ser que seja um aviso, uma ameaça…”

Já pensara nisso. Mas não tinha inimigos, nem era suficientemente rico para ser vítima de uma extorsão.

“Qual a razão então de você me procurar?”

Talvez alguma pessoa, sem uma das orelhas, viesse ao consultório do médico. Este, porém, observou-lhe que havia centenas de médicos na cidade. E hospitais. E Escolas de Medicina, nas quais se dissecavam cadáveres.

Se levasse adiante a investigação, teria de visitar e interrogar muita gente.

Nos livros de medicina e de anatomia, consultados na biblioteca, estudou escrupulosamente as orelhas. Tornou-se um especialista.

E, de orelha a orelha, ele foi vivendo, até os oitenta e tantos anos. Jamais conseguiu decifrar o enigma da orelha que havia achado sobre a mesinha, na sua sala. Mas recomendou, por testamento, que a orelha, conservada na geladeira, fosse sepultada com ele.

Os mortos, porém, se escutam, não falam.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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